T E M P O

Há de haver tempo para ser tempo,
Há de haver tempo para dar tempo
Há de haver tempo para arrancar erva daninha
Tecer esperanças e remoer rancores

TEMPO
T E M P O
T E M P O

Há de haver tempo para ser nada
Há de haver tempo para ter medo
Há de haver tempo para ser estrela
Mas estrelas não vivem, estrelas só brilham
Mas estrelas não vivem, estrelas só morrem

Há de haver tempo para beber chá e… ver a vida passar
Há de haver tempo para sorrir, viver por respirar
E partilhar veneno
Há de haver tempo para salvar o mundo, alguém o há de salvar

Há de haver tempo até que não haja mais tempo
Agora já somos velhos,
Agora que não vivemos
Agora que não aprendemos nada
Há de haver tempo para gastar o tempo que nos resta.

Insónia

Sento-me a beira da estrada, ainda estou dormente,
Vejo pés que passam
Uma luz nasce no meu olho direito
Dói-me o calo no pé e os meus óculos já não funcionam
Estou cada vez mais cega,
Cega para a cegueira
Cega para o engano e para o engodo.
Disseram que foi sonambulismo o sonho
Disseram-me que já não tenho nada a perder
Ainda sinto que tenho maldades por fazer
Quem sabe um pontapé na canela
Colar chiclete na carteira ou
Bater na campainha
de quem não pretendo visitar
Este ar está cada vez mais…
Sei lá… é… como… não vais entender
Sinto coisas que não sentia antes
As estrias nas minhas cochas fazem-me
lembrar um chão depois que a chuva passa
Ou se calhar o deserto que me constrói.

Márcia Brito

Márcia Brito nasceu em Santo Antão, Cabo Verde, é educadora artística, performer e intérprete no Coletivo de Teatro txon-poesia. Faz parte da direção da Associação txon-poesia. É licenciada em Educação Artística, pela Universidade de Cabo Verde, com o trabalho final de curso intitulado “Viver poeticamente – considerações sobre o impacto do txon-poesia 2019”. Realizou exposições de desenho e pintura na Escola Técnica João Varela e na Universidade de Cabo Verde.

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