8.

Tu dos justos dons    senhora das senhoras
nascida em santo ventre    suprema sobre a própria mãe

onisciente sábia    senhora de todas as terras
sustento de tantos    teu santo canto aqui recito

deusa certa e justa aos dons    numa exaltada aclamação
justa misericordiclara    aqui recito os dons que tens

8.

Bô de justos dons    snhóra das snhóras
nascid em sonte ventre    supréma sobre bô própria mãe

onisssiente sábia    snhóra d tude terra
sustente d tont gent    bô sonte kante eí m te recitá

déusa serta e justa pe dons    num ixaltada axklamasão
justa miserikordiosa    eí m te recita ex don ke bô tem

8.

me zid-de3    nin gal nin-e-ne
šag4 kug-ta e3-a    ama ugu-ni-ir dirig-ga

gal-zu igi-ĝal2    nin kur-kur-ra
zi-ĝal2 uĝ3 lu-a    šir3 kug-zu ga-am3-dug4

diĝir zid me-a tum2-ma    gal-bi dug4-ga-zu mah-am3
šag4 su3-ra2 munus zid šag4 zalag-zalag-ga    me-zu ga-mu-ra-ab-dug4

9.

No sagrado Gipar    penetrei teu serviço
eu sacerdotisa En    eu Enheduana

trazendo o cesto ritual    eu entoei um canto de alegria
hoje na ala da lepra    aí não vivo mais

vem a luz do dia    e essa luz me assombra
vem sombra à luz do dia    na tempestade de areia

o mel da minha voz    é um babélico fel
meu traço mais feliz    agora é pó

9.

Ne sagrade Gipar    m penetra bô servise
mim saserdotisa En    mim Enheduana

t trazê ess sexte ritual    m entoá um kante de ligria
hoje ne ala de lepra    lá me ke t vivê maj

bem luz de dia    e ess luz te sombré-me
bem sómbra p luz de dia    ne tempestéde de areia

ess mel de nhá vôj    ê um babélik fel
nhe trasse maj feliz    agora é pó

9.

ĝi6-par3 kug-ĝa2    hu-mu-ši-in-kur9-re-en
en-me-en    en-he2-du7-an-na-me-en

gima-sa2-ab i3-gur3-ru    asil-la2 i3-dug4
ki-sig10-ga bi2-ib-ĝar    ĝe26-e nu-mu-un-til3-le-en

ud-de3 ba-te    ud mu-da-bil2
ĝissu ne ba-te    u18-lu-da im-mi-dul

ka lal3-ĝu10 šu uh3-a ba-ab-dug4
niĝ2 ur5 sag9-sag9-ĝu10    sahar-ta ba-da-gi4

10.

Diz-me Suen quem é pra mim    agora Lugalane
diz assim pra An    “Que An me liberte”

só diz assim pra An    “Agora” e An me liberta
o que é viril em Lugalane    essa mulher há de levar

terra e dilúvio    jazem aos pés dela
essa mulher excelsa    estremece a cidade
na certa ela arrefece    a ira contra mim

e eu Enheduana    vou recitar a prece dela
vou dar meu pranto    cerveja doce a ela
à santa Inana    um “Salve” saudarei

10.

Dze-me Suen kem kê pa mim    agora Lugalane
dze assim pa An    “Ke An te liberté-me”

sô dze assim pa An    “Agora” e An te liberté-me
ukê kê viril ne Lugalane    esse melher há de levá

terra e dilúvie    te jazí ne pê del
esse melher exsélssa    te extrmessê ess sidade
ne serta el te arrefessê    kel ira kontra mim

e mim Enheduana    m te bem recitá sê presse 
m te bem dá nhe pronte    serveja doce p ela
p santa Inana    um “Salve” m t bem saudá

10.

nam-ĝu10 dsuen    lugal-an-ne2
an-ra dug4-mu-na-ab    an-ne2 ha-ma-du8-e

a-da-lam an-ra ba-an-na-ab-be2-en    an-ne2 mu-e-du8-e
nam lugal-an-ne2    munus-e ba-ab-kar-re

kur a-ma-ru    ĝiri3-ni-še3 i3-nu2
munus-bi in-ga-mah    iri mu-un-da-ab-tuku4-e
gub-ba šag4-ga-na    ha-ma-sed-de3

en-he2-du7-an-na-me-en    a-ra-zu ga-mu-ra-ab-dug4
er2-ĝa2    kaš dug3-ga-gin7
kug dinana-ra šu ga-mu-ni-ri-bar    silim-ma ga-mu-ra-ab-dug4

Tradução para português Guilherme Gontijo Flores
Do livro Inana: antes da poesia ser palavra era mulher

Imagem: The Penn Museum

Enheduana

Enheduana (2285-2250 a.C.) é tida, atualmente, como a primeira escritora da história. Foi sacerdotisa do deus Nana – o deus lua, divindade masculina – em Ur, durante o reinado de seu pai, o rei Sargão de Acade. Conhecida pelas composições literárias e por objetos com inscrições cuneiformes, em “A Exaltação de Inana”, a princesa-poetisa glorifica a divina Inana com uma composição que, provavelmente, seria declamada ao som de liras e flautas.

Guilherme Gontijo Flores

Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é poeta, tradutor e professor na UFPR. Publicou o romance História de Joia e os poemas de carvão :: capim e Potlatch, entre outros. Acaba de lançar em parceria com André Capilé o ensaio Tradução-Exu e o poema tradutório Uma A Outra Tempestade. Traduziu autores como Enheduana, Safo, Calímaco, Horácio, Propércio, Trobairitz provençais, Rabelais, Burton, Milton, Celan, entre outros. Foi co-editor do blog escamandro e é membro do grupo Pecora Loca.

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