o ventre escurece os modos de respirar:
disseram-me no dia em que as crianças responderam as máquinas:
sílaba que sustenta o suor
o barro sedentário nas iluminuras da boca.

ventre te eskuressê formas de respirá:
ej dze-me essim n dia ke kej kriansa respondê kej mákna:
sílaba e´ke te sustentá suor
kel borr sedentárie nex iluminura d´bóka.

desfaço o mioma nas regiões da dor
o que fulgura está nas danças
a gravação do solo
o idioma atravessado

M te desfazê ess mioma n kej regiôn de dor
u´ke t fulgurá tá nex dansas
gravassão d sôle
idioma trevessôd

de repente as palavras estão na minha cara
brincam no meu rosto
basta olhar os animais diante da pedra
nos corredores da insónia
os fortes animais trilham na noite
pelas mãos cruzam a remota barbárie
alumiam velocidades.
às vezes o rosto é palavra
que os animais trilham.

de repente palavras te ne nhá kara
ej t brinká ne nhe roste
basta espiá kej animais diante de kel pedra
nex korredor de insónia
fortes animais te trilhá ne noite
pelas mãos te kruzá kel remota barbárie
te lumiá velosidéd.
às vej rost é palavra
ke animais t trilhá.

como atravessar os espelhos sem a face de deus?

Do livro Córtex

k-manera trevssá espelhos sim fasse de deus?

Fotografia: Werner Puntigam

Hirondina Joshua

Hirondina Joshua, poeta e escritora moçambicana, membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Curadora do projecto Exercícios da Retina no Mbenga Artes e Reflexões (Moçambique) sobre divulgação de textos e conversas com escritores lusofónos. Na revista Palavra Comum (Galiza) colabora com ensaios sobre a arte da escrita. Livros publicados: Os ângulos da casa (Fundação Fernando Leite Couto, 2016 – Poesia), Como um levita à sombra dos altares (Húmus, 2021 – Contos), A estranheza fora da página com Ana Mafalda Leite (Húmus, 2021 – Poesia) e Córtex (Exclamação, 2021 – Poesia).

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