[jovem negro anota nome andar condómino]

jovem negro anota nome andar condómino
zela piscina do jardim das delícias dos outros

na praia zela bandeira pandémica
controla número de desavindos da fortuna

negras mãos e amarelas brancas pardas
esfregam esfregam o mesmo produto
gel espanta vírus

cadê gel espanta estupidez?

[jovem negre te anotá nome andar kondóminie]

jovem negre te anotá nome andar kondóminie
zelá pijsina de jardim de delísias d´otxe

ne praia zelá bandera pandémika
kontrolá númre de desavinde de fortuna

negre mom e amarel bronk parde
te esfregá te esfregá mêsma prodúte
gel espanta vírus

ondê gel espanta estupidez?

[jovem, alto, procura na madrugada]

jovem, alto, procura na madrugada
alguma coisa. alguma coisa que o possa remendar.
reconheci-o. vulto debruçado para o caixote,
no outro dia sentado num banco frente ao prédio
onde moro. perguntei-lhe se queria alguma coisa
para comer. e perguntei-lhe de onde era. é polaco.
fez-me lembrar uma personagem do Tarkovsky,
em Stalker: rosto retesado no cabelo rapado,
marginal, místico.

compreendo agora fez-me lembrar um pouco de mim

[jovem, olte, te prokurá ne madrugada]

jovem, olte, te prokurá ne madrugada
algum kosa. algum kosa e´ke podê remendá.
rekonhesê-l. vulte debrussode pa um kaxote,
ne ote dia sentodo num bonke frente dum prédio
ondê kum te morá. Um pergunté-l sel kria algum kosa
pa kmê. e um pergunté-l de onde el era. el era polake.
fezê-me lembrá um personagem de Tarkovsky,
ne Stalker: roste retesode ne kabel raspode,
marginal, místiko.

Um te kompreendê agora fezê-me lembrá um bokedim de mim

[politicamente correcto]

politicamente correcto

aos demais
se desinveste do estapafúrdio
desenterrar caveiras
escravos ou não escravos

ah querem pespegar no pedestal
do museu das descobertas a descobrir
os coitados da condição de escravos
e legendar porventura antepassados nossos

aos demais proponho
descacetar o capacete
pela radicalidade do encanto

[politikamente korréte]

politikamente korréte

pus demais
gent te desinvestí de estapafúrdie
desenterrá kavera
eskravos ô não eskravos

ah bsot kre sbí num pedestal
dum museu de deskobertas pe deskubrí
kej kuitode de kondisão de eskrave
te legendá porventura antepassode nosse

pus demais um te propô
deskasetá kel kapasset
pê radikalidad d´inkante

Manuel Almeida Freire

Manuel Almeida Freire (Sôsa, Vagos, 1957). Mestrado em Literatura Comparada. Exerce funções docentes no ensino secundário. Publicação de poesia dispersa por jornais e revistas, a primeira no nº 1 dos Cadernos do 40, Coimbra, 1980. Foi jornalista freelancer e colaborador no JL (Jornal de Letras Artes e Ideias), Cadernos do Terceiro Mundo e na revista Os Meus Livros. Autor de: Para uma leitura da poesia de Antero Quental, Teixeira de Pascoaes, Afonso Duarte: poetas do sagrado, Editorial Presença, 1996, e Racionemos também a estupidez, Editora Urutau, 2021.

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