A LUZ AMARRADA NOS CONTADORES / LUZ MORROD NE KONTADORES

As matérias

Toca as matérias do mundo:
a terra, água, o âmbar
todo cheio de fogo;
esta nervura de puro aço,
o ar parado, o solo que troveja
surdamente;
o eixo multiplicado
do citrino, estrelas em fuga,
fusíveis acesos toda a noite. 

Toca as matérias do mundo,
mas, quando as tocas, despede-te 
de todas, uma a uma:
vê a linha de escuro
que as afasta, devagar as delineia,
e diz em silêncio que não são todas,
não são inteiras, 
que são como fósseis, 
as matérias:
sombras.

Matérias

Toka matérias d’mund:
terra, ága, âmber
tudo cheie d’lume;
esse nervura d’ósse pure,
Kel ar porode, txon ek t trevjá
surdamente;
Kel eixe multiplikod
dum sitrine, strélas te fugi,
fusíveij asséssé not inter.

Toka matéria d’mund,
má, kond bo tocaj, dspedi
de tud ej, um a um:
oia kel linha de eskure
Ek te festej, d’vagar t delineiej,
e te dse ne silêncio ke ene é tud ej,
J’en é inter, 
Ke je moda uns fóssil, 
Kej matériaj: 
sombraj.

Contra os hábitos

Não comas à mesa de família,
não olhes outra vez os mesmos quadros,
não pises o caminho descalço do corredor,
não vistas a roupa já vestida,
não te sentes na cadeira do canto,
não dobres as toalhas pelo vinco,
não leias os livros herdados,
não organizes as gavetas por ordem,
não dês as paredes por adquiridas,
não saibas de cor o teu nome,
não te entregues ao conforto das formas.

Kontra hábitos

Ke bô kmé ne mesa de família,
Ke bô espiá ot vez kej mesma kuadre,
Ke bô psá kamim deskolse dess kurrdor,
Ke bô pesti kel ropa já pestid,
Ke bô sentá ne kel kadera d’konte,
Ke bô dobrá toalha pe vinke,
Ke bô alê livre erdod,
Ke bô organizá gaveta por ordem,
Ke bô dá kej perede por adquirid,
Ke bô sabê de kór bô nóme,
Ke bô intregá à konfort de formaj.

Balança

Pesa na mão o peso desta terra,
desta pedra.
Pesa, mas não descontes
o peso da mão, suspensa
no ar denso, pesado.

Depois, quando pousares
a pedra, a terra retirada, 
fica ainda
com o peso da mão sem terra,
sem pedra, o peso real

e abstracto de mão sozinha,
por dentro, feixes 
de músculos incandescentes,
a mão
da mão limpa:

o nome exacto do que não sabes,
a matéria indefesa
que não tem nome, 
o peso imponderável
do que não pesa.

Balansa

T pesá ne mom pese desse terra,
desse pedra.
El t pesá, má ke bô deskontá
kel pese de mon, suspense
ne ar dense, pesód.

Txupj, kond bô pousá
kel pedra, terra retirod, 
t fka inda
moda pese de mom sim terra,
sim pedra, pese real

abstrate de mom el sô,
por dente, feixe 
de múskle inkandexsente,
a mom
de mom limpe:

nome exate du ke bo k sabê,
matéria indeféza
ken dem nôme, 
pese imponderável
do ke’n d pesá.

Forma

Pobre luz, amarrada
nos contadores:

como poderias cantar com
voz clara, se rastejas
pelos fios? 

Pálido lume, gelado,
recorda a caldeira
das estrelas.

Forma

Pôbre luz, morrode
ne kontodor:

manera k bô podia kantá k
voz clóre, se bô t rastejá
pe fio?

Pálido lume, gelod,
t lembrá kel kaldera
d estréla.

Pedro Eiras

Pedro Eiras (Porto, 1975). Desde 2001, publicou obras de ficção (Bach, A Cura, Cartas Reencontradas de Fernando Pessoa, O Mapa do Mundo), poesia (Inferno, Purgatório, Paraíso), teatro (Um Forte Cheiro a Maçã, Uma Carta a Cassandra, Um Punhado de Terra, Bela Dona), ensaio (Tentações, Os Ícones de Andrei, Constelações, Língua Bífida…) e outros géneros. Tem diversos livros publicados no Brasil e em França, Inglaterra, Itália, Roménia; as suas peças de teatro foram encenadas ou lidas em dez países. Com Esquecer Fausto (2005) ganhou o Prémio Pen Clube Português de Ensaio, e com Inferno (2020) o Prémio Literário António Cabral. É Professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

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