TÂMARA
MAPA EMOCIONAL DE VILA REAL

A mentira ou o cano


Vila Real

Tens um mapa nas mãos, Lúcia.
Tens mãos, tens mãos.
Vá, fuma. Dá um trago.
Dá cá um coche do croissant que comes, gulosa.
Come antes um twix.
Dou-te do meu twix.
Corta essa, diminui a peça!
Fuma Lúcia, fuma Lúcia, chá Li-cungo,
fuma o que te esfuma, te faz desaparecer a
perfeição a que ascendes.
Tens medo de alturas, eu sei.
E queres alturas.
Queres o medo.
Dá-me do teu licungo.
Vai ao Pioledo,
toma baileys com gelo num dia de morte,
impressiona o mundo
com a vontade que tens de ler tudo o que vires.
Tens mãos para mais que as mãos que seguram o
casaco à espera do amor.
Beijaste-o nesta esquina.
Vocês riam, falavas da tua irmã.
Os cabelos longos,
a seda dos olhos,
a sopa diária.
A perfeição. O fumo.
Fuma, Lúcia, fuma.
A professora de matemática chamou camelo ao
teu pai, contaste-o na Traturia,
onde se toma a amargura em riso,
fastio eufórico em copos pequenos,
a meio de um moranguito, um pastel de nata,
sempre o baileys, a canela,
o fuste fundo da razão inútil entornado na lapela.
Lúcia, a voz que trago só te quer amar,
subir contigo, dormir contigo.
O teu cabelo, a seda dos olhos, as tuas mãos.
Dá-me um coche do que vês em cada esquina.
O BigBobs dá-me almoço.
Hoje não vou a casa, vou subir,
quero evadir-me,
ser sobre as asas o mundo sobre o mundo.
Esta cidade, as avenidas de tília,
a fome, a mudez vestida de folhas,
o abrigo do verão que queima
os teus cabelos pintados na piscina.
Convidavas-me a ir porque ir era como ser normal
melhor mutante.
Falávamos de formigas,
de tempestades de ouro,
do futuro.
Eu subia ao arrozal das têmporas,
esse formigueiro insalubre, o álcool.
Convidavas-me para desfazer o perfeccionismo,
os teus pelos louros luziam.
Eu subia a ti
como que feito alpinista de conversas difíceis.
As azáleas medravam como búzios
o mar era ali ao lado
a sorte era eu estar ao teu lado.
Sem tesão.
Não há tesão no mundo da lua.
As lulas aqui são frescas.
O caril é desconhecido até ao Algarve.
O óleo de côco, a neura, é pura como escabeche,
a que distância de coentros o afasto.
Sopas de fundos iguais a melão seco na fuligem
das valetas, coisas de perfeição erodem a sala
onde ainda dizes que preparaste batatas e umas
taliscas de perú.
Táticas para me beijares sem tesão.
Testa, temperamento, tento na língua tímida,
tempura do Alfredo. Recomendo.
Testosterona na esquina da escola, borbulhas,
telefonemas infindáveis, a tua testosterona atrás
da sala infindável do silêncio entre tu e eu.
As tuas pernas, as tuas mãos.
Fuma Lúcia. Lúcia lenta na noite de fumo
esfumando-se no haxixe barato falso, pedra da
boa ou enjoo.
Lenta na noite Lúcia.
Vila Real é essa noite de beijos lúgubres sob a
palmeira, antes do Algarve do meu sonho.
Há cegonhas fazendo bebés nesse spot.
Olha a ironia. A palmeira morreu ao ver-nos
naquele enleio e recebeu suspiros de pássaro,
ovos de pássaro e pássaros novos.
Sem tesão. Ao abrigo desse longo verão em que
te vi completamente esquecida do soco, do
sumiço dos meus temas, da miragem das abas de
fumo dos meus alguidares, da carne que arde em
magia, da água do mar distante e sossegado nos
teus beijos reprimidos no elevador.
Subíamos ao teu pouso.
Em que estás a pensar?
Em ti.
Na magia, na água, na noite em meus punhos,
no sal, na areia das falésias espalhadas em
almofadas de marfim. Marfim fofo, uma corda na
maré, o reluzir estelar da manhã e pingas, pingas
de caldo de galinha.
E tu?
Em rumores esquecidos, em tartarugas, em
poemas de nuvem. Nú vens, nu estás.
Nublado o meu juízo, o meu salame.
Some-te. Descansa.
As toalhas demoram a absorver tanto sangue.
Nas ruas as rotundas dão-nos tonturas.
A estrada conduz ao centro do encanto, mas esse
lugar está por fazer.
Guardo o pus do meu labor engrenado na posse
dos teus suspiros e ainda assim desapareces e
voltas nas mãos da bruma sobre a caneca de chá.
Este lugar está por fazer, o copo vazio, o corpo
sustentando-se de migalhas e pó.
É agora que voltamos a estar, a agregar o luto, a
beber do mesmo álcool que nos desmoronou,
desmembrou, nos turvou a alegria.
Qual era a opção?
O perfeccionismo, a virtude.
Fuma Lúcia, vá, fuma.
Fodemos de mais o que nos tolhia a alma.
Assim crescemos como corais em marés de
plástico e alcatrão.
Olha como viver ainda resulta.
Supõe que damos as mãos, mergulhamos na
caneca de chá e cozemos um pouco a pele,
amolecendo a timidez e o engano de dias e dias e
dias a amar e a dizer que agora ainda é tempo.
As janelas conduzem a ventania que entra olha
como o óleo das nuvens refresca o nosso ideário,
vê como ainda luta contra a inércia dos cabelos
que se querem quietos à custa de lacas
enjoativas. Vou à missa, tenho caracóis nos
cabelos grisalhos, fiz bolo de laranja, reguei as
azáleas, as prímulas, as avencas, varri o pátio da
entrada, pus a tua roupa a lavar, depenei um pato
e tu vieste agora de uma volta pelo vazio das
praças. O vento dirige-se ao interior das casas,
olha como a sala é um enorme búzio, ouve-se
mesmo o mar aqui. O mesmo mar que vi contigo
para lá dos montes, onde as gaivotas gritam e os
peixes tremem de medo do alcatrão.

Senhor Balão

Senhor Balão nasceu de um sopro de música. Dorme e mastiga o papel de fumo da noite, trabalhando a dentição para melhores verões. É um heterónimo de Gil Machado, nascido em Vila Real, em 1988. Co-fundou com amigos o colectivo artístico para a poesia “Calhau” e o projecto “Cara Cidade,” de consciencialização para a arquitectura. Estuda teatro e pintura.

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