EXÍLIO – ‘ADAGIO MOLTO CONTRARIATTO’

Quando há pássaros
Onde há pássaros
há música
Quando há música
cresce um solo de piano
E a eternidade toda
que se escapa de um sax tenor

Há um piano
onde o pássaro não pousa
porque a água nos olhos cega
Parte
ou voa para a morte
Flying home

Quando há canto
Onde há mal
de amor se morre
como se fosse verdade

Quando o Miles não sabe
O que é a verdade
a música hesita num instante
em que o pássaro se vai
Alone
e
sopra:
Se ao menos o tempo
– a própria matéria do adágio
não fosse
o seu sentido todo
implacável e frio
no desautorizar do sangue e da lágrima!

(1989)

EXILIE – ‘ADAGIO MOLTO CONTRARIATTO’ 

Konde tem posse
Ondê tem posse
tem muzka 
Kond tem posse 
te kriá um txon de piane 
E tude eternidade 
ek te exkapá dum sax tenor 

Tem um piane ondê 
posse ke te pousá 
mode aga ne oi te segá 
Bai
ô vuá pe morte 
Flying home

Konde tem kante 
Ondê tem mal 
de amor gente te morré
moda se fosse verdade 

Konde Miles en´sabe 
o kê verdade 
muzka te ezitá num instante 
em ke kel posse te bai 
Alone
e
el te soprá:
Se ao mens tempe 
– kel próprie matéria de kel adagie 
ka fosse 
sê sintid tude 
implakável e friu
ne desauturizá de sangue e de lágrima! 

(1989)

CUTILEIRO

uma a uma as meninas
sorvem da pedra
seu secreto adágio

(o mundo – bífidu – corta-se
em blocos de mármore)

enquanto sua alma gêmea
branca pedra se expõe ao sol
com frutos secos ao peito

(o leste – securitates – derrete-se
em soldados de ovos)

uma a uma as secretas
inquietantes meninas
sonham a posse por seu negro cisne

(o mundo – glasnost – esculpe-se
em seixos de mármore)

(1990)

KUTILER

um a um kej menininha
te sorvê de pedra
sê sekrete adágie

(munde – bífidu – te kortá el mésmo
em bloke de mármore)

inkuente sê alma gémea
bronk pedra te expô ne sol
ke frute seke ne peite

(leste – securitates – te derretê el méme
ne soldade d´ove)

um a um kej sekrete
inkietante menininha
te snhá ser pussuid pe sêj negre sisne

(munde – glasnost – te eskulpi el mesmo
em seixe de mármore)

(1990)

TERRA FRANCA (Recidivus)

Descoberta
      de gazelas e fumeiros
    quem te feriu de lança?
Violada
      de degredados e aljubeiros
    quem te cortou a trança?
Batida
      de escravos e pombeiros
    quem te pagou a fiança?
Abluída
      de padres e kimbandeiros
    quem te açaimou a esperança?
Dominada
      de kuribekas e patrulheiros
    quem te atempestou a bonança?
Espartida
      de indígenas e agrilhoeiros
    quem te roubou a pujança?
Disputada
      de fascistas e guerrilheiros
    quem te acoimou a vingança?
Truncada
      de epígonos e prisioneiros
    quem te expungiu a matança?
Exaurida
      de kamangas e petroleiros
    quem te colheu a abastança?
Traficada
      de kilapiés e caloteiros
    quem te abusou a confiança?
Zurzida
      de kamartelos e trungungueiros
    quem te partiu a achegança?
Brandida
      de zungueiras e roboteiros
    quem te alongou a andança
Separada
      de expatriados e ngundeiros
    quem te quebrou a aliança?
Privatizada
      de planistas e banqueiros
    quem te desiquilibrou a balança?
Cerceada
      de papistas e mixeiros
    quem te travou a mudança?
Redescoberta
      de tesouros e feiticeiros
    quem te recebeu de herança?
 A Ngola?

(2011)

TERRA FRANKA (Recidivus)

Dxkoberta
      de gazelaj e fumere
    kem fribe de lansa?
Violod
      de degradodej e aljuberej
    kem kortóbe bô transa?
Esponkod
      de eskrave e pombere
    kem pagob fiansa?
Abluída
      de padrej e kimbandeirej
    kem matob bô experansa?
Dominada
      de kuribekaj e patrulheirej
    kem revolteobe bô bonansa?
Expartida
      de indígenaj e agrilhoêrej
    kem robá bô pujansa?
Disputada
      de fajxistas e guerrilhêrej
    kem te sensurá vingansa?
Mutilada
      de epígnuj e prisionerej
    kem extirpá bô matansa?
Exaurida
      de kamangas e petrolerej
    kem levá bô abastansa?
Trafikada
      de kilapiés e kaloterej
    kem busá de bô kunfiansa?
Zurzida
      de kamartelos e trungungueiros
    kem rompê bô xêgansa?
Bréndida
      de zunguêraj e roboterej
    kem alongá bô andansa
Separada
      de expatriodej e ngundeirej
    kem kebrá bô aliansa?
Privatizada
      de planistaj e bankêrej
    kem dzikilibrá bô balansa?
Serseada
      de papistaj e mixeirej
    kem travá bô mudansa?
Redxkoberta
      de tezôrej e feitserej
    kem resebêbe de heransa?
 Ê Ngola?

(2011)

ÁFRIKA DESERTADA

Às portas fechadas
do Mediterrâneo
desaguam filhos prodígios
exangues, exauridos

Levando da partida
um sopro de sobrevida
por um contemporâneo
tudo cheio de nada

Uma esperança de céu
adormecida sob o véu
do sonho de rei
cobrindo o pesadelo
de plebeu.

Para trás o deserto
de uma terra sem tecto
minada de riquezas
e porvires
a céu aberto

E a Mãe sem adeus
ainda fértil
orando ao seu deus
sempre séssil
por seus filhos pródigos

Esperando-lhes o regresso
para um ancestral
nada cheio de tudo
entre luzires.

(2021)

ÁFRIKA DESERTADA

À porta fxtod
de Mediterrânie
Te desaguá uns fidje prodigie 
exangue, exauridej

Te levá de kel partida 
um sopre de sobrevida
pê um kontemporânie
tude xei de nada

Um experansa de séu
te durmi d´boxe d´kel véu
de sonhe d´kel rei
te kubri kel pesadel 
dum plebeu.

Pê tráj de kel dezérte
d´um terra sem téte
minode de rikéza
e purvirej
a séu aberte

E kel Mãe sem adêuj
inda fértil
te orá pe sê déuj
sempre séssil
pe sij fidje pródigie

Te experá sij regrésse
pe um ansejtral
nada xei de tude
entre luzirej.

(2021)

Traduson de português Márcia C. Brito

Ana de Santana

Ana de Santana (t.c.p. Ana Koluki – n. 1960), é autora de ‘Sabores, Odores & Sonho’, editado pela União dos Escritores Angolanos, em 1985. A sua poesia está incluída em diversas antologias nacionais e internacionais, como ‘Lusophone African Short Stories and Poetry’ (Cambridge/UK, 2021). Referenciada em publicações literárias internacionais, como ‘A History of Twentieth Century African Literatures’ (1993). Tem trabalhos sobre economia e história económica, política, sociedade, cultura e literatura publicados em revistas académicas, como o Oxford Companion to the Economics of Africa (UK). A partir de Londres, desenvolve investigação e consultoria internacional, enquanto continua a escrever poesia.

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