Ela

A cada manhã, desalojar a
bomba caseira, ela, a bomba;
cessar seu sintoma, circuito, sua
impulsão elétrica, trabalho 
estoico: jogo de ascetas
adiar a clausura, derradeira 
tarefa, minúscula, infinita;
mas a cada noite, ela, 
queira ou não queira,
Penélope avessa, a bomba 
caseira refaz o desfeito, 
retoma, elétrica, o sintoma,
o circuito ascético, o jogo 
da regressão dos segundos.

Empurrar pedra, Sísifo, é mole.

Conquista a sala de estar, a cozinha
uma enorme coleção de mercadorias:
almoço, hora, visita, frascos, dosar
um cheiro de giz, não, um cheiro de, não,
não, não, não, não,
de gosto do AAS nas tardes de sono
a trinta e nove ponto oito graus e 
a alquimia se dá num copo de cristal
reservado aos dias de festa:
eu trago, você bebe, combinado?
uma enorme coleção de personagens e
não venha querendo você se espantar, não,
não, não, não, não
,
estamos a exatos treze meses-luz do espanto. 

Conversamos horrores alheios, horrores sérios, graves, escapamos do horror prosaico, o horror bomba caseira, o horror “passei no mercado, o pimentão está mais barato na feira do canal seis”. Trinta anos até finalmente rir a ironia dum verso:

— A única coisa a fazer 
[sabemos bem (sem metafísica)] é tocar um tango argentino.

Mais uma manhã, retomar
a luta contra a bomba, ela, já 
de casa; adiar seu trabalho, sua 
regressão impulsiva, tarefa
estoica: partida de vencidos 
cessar a clausura derradeira,
infinita, minúscula; e
mais uma noite, ela, queira 
ou não queira, sultana Shahryar,
a bomba caseira rebobina o clichê 
de cinema, refaz os fios desfeitos, 
o azul, o vermelho, nenhuma 
chance ou dúvida, a fórmula 
química a nu, em cheio.

Ela

A kada manhã, desaloja kel
bomba kazer, ela, kel bomba;
sessá sê sintóma, sirkuit, sê
impulsão elétrike, troboi 
estoike: jogue de ajseta
adiá klausura, derrader 
tarefa, minúskle, infinit;
ma a kada noit, ela, 
ker keira ô ker não,
Penélope avêsse, kel bomba 
kazer tê refazê o dejfeite, 
retomá, elétrika, kel sintóma,
ekl sirkuit ajsétike, kel jogue 
de regressão de segundes.

Impurrá pedra, Sísifo, ê môle.

Konkistá sala de estar, kzinha
um grênd koleson de merkadoria:
almose, hora, vsita, froske, dosá
um txer de giz, não, um txer de, não,
não, não, não, não,
de goste de AAS ne kej terde de sone
a trinta e nove ponte oite grau e 
kel alkimia te dá num kope de kristal
reservod pe dia d´festa:
um te trezê, bô te bibê, kumbinode?
um grend koleson de personagens e
ka bo bem t kre ejpantá, não,
não, não, não, não
,
nô te a exate treze mêj-luz de ejpante. 

Nô konversá horrorej alheiej, horrorej série, grave, nô ejkapá de kel horror prosaike, kel horror bomba kazer, kel horror “um passá ne merkode, pimenton tê mêj borote n feira d´kanal seis”. Trinta ano atê finalmente êri kel irunia dum verse:

— Únike kosa ke no pode fazê 
[nô sebê dritin (sim metafíska)] ê toka um tange argentine.

Mêj um manhã, retomá
luta conkra kel bomba, ela, já 
d´kasa; adiá sê traboi, sê 
regresson impulsive, tarefa
estoike: pertida de vensidej 
sessá kel klausura derradeire,
infinite, minúskle; e
mêj um noite, ela, ker keira 

ou ker não, sultana Shahryar,
kel bomba kaseira rebobiná kel klixê 
de sinéma, refazê kej fio desfeit, 
azul, vermei, nenhum 
xanse ô dúvda, kel fórmula 
kímka a nú, em xei.

Avec french fries

Uma, duas revoluções
uma, duas guerras
noventa metros de cimento armado
atravessam dois impérios,
gritam:
liberté,
égalité,
fraternité!

Mas, no eco,
menos
dezesseis milhões de apaches,
dois milhões de argelinos.

Do livro Potências Feministas: Papel e Voz (2021) com ligeiras alterações

Avec french fries

Um, doj revolusão
um, doj guerra
noventa metre de smente ormode
trevessod doj impérie,
ej gritá:
liberté,
égalité,
fraternité!

Má, ne éke,
menuj
dezesseis milhões de apaxe,
doj milhões de argeline.

Gênese

Pai na cabeceira, é hora do almoço. 
Prato à frente pincelado de restos, 
faca limpa na dobra do guardanapo.
 
Seis laranjas transpiram à esquerda. 

A mão direita envolve a lâmina,
talha o umbigo da primeira, rasga 
sua pele, destreza de médico-cirurgião. 
Descolado o tecido rugoso, 
em rotação contínua,
livre, perfura o ar
uma espiral
descendente, dança
dos olhos
dela para as mãos dele, das
mãos dele
para os olhos
dela.

Ela repete, ares de façanha;
fracassa, mutila, abre fissuras,
urgente, apressada,
em todas as cinco
restantes nenhuma 
dança, 
somente 
sumo
lambe
pelo
ante
braço.

Mesmo gesto das infâncias
humanas, criaturas do Éden
afoitas em direção à
árvore central.

Gênese

Pai ne kabsêra, ê hora d´almose. 
Prote ne frente pinselod de reste, 
faka limpe ne dobra de guardonope.
 
Seis laranja transpirá à eskérda. 

Kel mon direita envolvê kel lâmna,
talhá umbigo de primeira, ratxá 
sê pele, dejtréza de médike-sirurgion. 
Dejkolode kel teside rugoze, 
ne rotason kontínue,
livre, perfurá ar
um xpiral 
dejsendente, dansá
de oi
dela pe mon del, de 
mon del
pe oi
dela.

Ela te repti, ar de fasanha;
frakassa, mutila, ébri fissura,
urgente, apressode,
ne tude kej sinke
restante nenhum 
dansa, 
sô 
sume
lambê
pe
ante
brose.

Mesmo geste de infânsia
humane, kriaturaj de Éden
afoite ne direson de 
árve sentral.

Traduson de português Márcia C. Brito

Bruna Carolina Carvalho

Bruna Carolina Carvalho nasceu em Santos [Brasil] e vive na Amadora [Portugal]. É doutoranda em Estudos Literários, Culturais e Interartísticos na Universidade do Porto, jornalista e estudante de Letras. Tem poemas publicados nas antologias Volta para a tua terra (Urutau, 2020), uma pausa na luta (mórula, 2020) e Potências Feministas: papel e voz (2021). É autora de Glauber Rocha, Leitor do Brasil (Lumme Editor, 2021). 

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