Da terra ao mar (ou ao contrário)
1.
É só um filete. Um corte vertical e fino no caule, uma promessa de sulco escuro entre cascas de madeiras multicoloridas, do marrom escuro ao quase branco passando por aquele cinza vegetal prateado que me olha sempre tão intenso, aquele brilho fosco que me prende a respiração. Estou grudada nessa casca, mimetizando minha pele cor de graveto, querendo virar seiva linda pegajosa. Vai aumentar, esse filete, eu sei que vai, eu vejo o negro que está no fundo, um buraco negro muito calmo, tapete de silêncio. Aos poucos penso que o prateado vai cobrir meus ombros e dou de ombros. Já sou casca, sempre fui. Estarei seca e firme quando o filete virar uma senda, atalho para o tom de terra molhada.
2.
Eu olhava o tapete dourado salgado e sabia que precisaria curvar rápido as costas quando precisasse cambar, virar a vela de lado, obedecer ao vento. Eu sabia, esperava aquele momento que parecia um abrir de portas, e era, portas molhadas rangendo com areia, a imensidão do mar banhada pelo sol, o som das batidas da proa nas ondas, o arrastar das cordas, rápido, é agora, abaixa, abaixa mais, namora o convés com a cabeça, quem mandou crescer tanto no último ano, talvez esse seja seu último verão de maruja, rápido, agora levanta e troca de lado, isso, já foi, já mudamos o rumo, sem bússola nenhuma além daquela da experiência, a que transforma alguma coisa no fundo, que nos faz sair diferente do outro lado. A praia ficando pequena, distante, a coragem do alto mar, a única ideia livre é a do náufrago, aquele que conhece as águas-vivas como ninguém, queimado por elas porque não consegue parar de admirá-las, bolhas dançantes transparentes vermelhas doendo por dentro, agora a praia é só um filete, primo distante deixado em terra. É preciso aprender a cambar.
3.
Gostava de ficar no mar, mais para o fundo, no limite do cálculo, aquele que ponderava braçadas e fôlego para voltar, mas a lógica quando se inunda perde o resultado das contas e as fórmulas rabiscadas no canto da página, não sobra nada dela a não ser um certo movimento sensato das pernas e dos braços para manter a cabeça do lado de fora, só ela, separada do corpo, seca e racional, alijada do movimento de baixo, anotando a distância cada vez maior da praia sem ver a dança submersa em gelatina salgada translúcida, atração dos peixes entediados da costa. O que é que importa não conseguir voltar, pensam as pernas, antes de chamarem a cabeça para um mergulho.

Carla Mühlhaus
Carla Mühlhaus tem os pés na terra e a cabeça cada vez mais no mar. Na superfície, é, às vezes, jornalista, já no fundo do mar gelado do Porto é escritora, poeta, contista. É autora, entre outros livros, das novelas À sua espera (Dublinense) e Nos vemos em Marduk (Patuá). Em 2023, lançou o livro de crónicas Pulei sete ondas e não funcionou, então pulei o mar todo (Urutau). Dizem que é mestre em comunicação pela UFRJ, especializada em arte & filosofia pela PUC-RJ e pós-graduada em filosofia para crianças e jovens pela UCP-Lisboa, mas a verdade é que seus diplomas andam muito molhados. Brasileira, vive em Portugal desde 2018. www.acasadomoinho.com.br
