chupar a popa do baobá

no começo era tudo terra, ventre, útero
a raiz atravessava a semente para comer a terra 
a terra maltratada pela cana de açúcar
a terra-pernambuco
a terra explorada e queimada
mas nossa
resistindo e brotando fertilidade
reagindo e renascendo por cada brecha 
de morte

o parto da terra começou no meu útero mestiço

enquanto me tornava terra
renasci num corpo só com todas aquelas mulheres
toquei as feridas
esfreguei o suor 
lambi o cheiro 
chupei o silêncio
o silêncio da terra molhada
o silêncio do sol escaldante
o silêncio da falta d’água
o silêncio do sabor da fome 

o gosto do veneno naquela terra era doce 
como se ali fosse só um canavial qualquer
como se aquela terra onde eu cravei as minhas raízes
não estivesse cheia de fúria e de sangue
como se eu não estivesse pisando num pedaço de
terra em estado de desobediência 

barriga vazia desencadeia outros 15 tipos de fome

fome de sentir a vingança da queda
o rancor do silêncio 
e o levantar da revolta

voinha me ensinou que riqueza é 
ter sempre arroz, feijão e cuscuz na estante
água na caixa 
e morar longe da barreira

faz muito tempo que eu não tenho conexão com essa rua
com esse chão 
com essa gente 
então
vamos comer as metáforas 
porque 
a arte de se esvaziar é simples

é só dar 10 voltas ao redor do baobá

txpá popa de baobá

ne inisie era tude terra, ventre, útre
raij tava trevessá kel smente pe kmê terra 
terra meltrotode pe kana d´assúkra
terra-pernambuk
terra xplorode e kêmode
má noj
te resisti e te brotá fertilidéde
tê reagi e te renascê pe kada brexa 
d´morte

parte de terra kmessá ne nhe útre mejtisse

inkuente um tava vrá terra
um renassê num korpe mi sô má tude kej amdjer
um toká kej frida
um ejfregá kel suôr
um lembê kel txer
um txpá kel silênsie
kel silênsie de terra moiode
kel silênsie de sôl kente
kel silênsie de falta d’ága
kel silênsie de sabor de fôme 

kel goste de venene ne kel terra era dosse
moda se lá fosse um kanavial kolker
moda se kel terra ondê kum kravá nhes raij 
ka tivesse xei de fúria e séngue
moda se mi ká tivesse pzod num pedosse de  
terra ne estade de dsobediênsia

bérriga bêzi te dsenkediá otxe 15 tipe de fome

fome de senti kel vingansa de keda
kel rankor de silênsie 
e kel levantar de revolta

vôvô injnéme ke rikéza ê 
ter sempre arroj, fjon e kujkuj ne stante
ága ne tenke 
e morá lonje de barrera

te fazê mut temp kum ká tem konexão kess rua
kess txon 
kess gente
entõn
nô bem kmê metáfras   
mode 
kel arte de esvazia bo mesmo ê simples 

ê sô rediá 10 vez um baobá

tradição

o usineiro não perde nada não
essa terra aqui tem 405 hectares 
ele ganhou 22 mil reais por hectare 
faz as contas aí

a gente num veio aqui arrancar 
a cana dele não
a terra já tava morta
improdutiva

por causa de tradição
que nós mesmos 
trazia da usina
de plantar com veneno 
e depois queimar

a morte da terra começou pelas nossas mãos

tas vendo aquele barranco ali?
quando eu tinha 10 anos
eu pegava lenha pra cozinhar feijão
o usineiro mandou derrubar
as árvores que tinha

eu amo a natureza
e hoje
tem mais de 10 árvores nativas daqui
plantadas no meu lote
eu que plantei
tudinho de novo

a história da terra começou pelas nossas mãos

se tu olhar 
a terra não tá mais tão seca
veja quanta bananeira já deu
beringela, couve, bredo, alface, feijão de corda, cenoura
num tem mais cana

tu me passa o açúcar pra eu botar no cafézinho
faz favor, menina?

tradisson

kel usiner ka te perdê nada não
essa terra êi tem 405 hektar 
el ganhá 22 mil real por hektar 
fzê konta lá

nô ká bem êi pe ranká
sê kana não
ess terra já tava morte
improdutive

por kosa dess tradisson
kê noj même
tava trezê de kel usina
de plantá ke venene 
e txpuj kemá

morte desse terra kmessá pe noj mon

bô ti te oiá kel brok lá?  
konde um tinha 10 one
um tava panhá lenha pe fazê fjon
kel unisner mandá pta ne txon
kej mote ek tinha lá

um te amá natureza
e hoje 
tem mej de 10 árve native dei
plontod ne nhe lote
mi ek semnhej 
tudin de nove

história dess terra kmessá pe nôj mon 

se bô xpiá 
ess terra já´n de sek
oía tont bnenera jál dá
bringela, koive, bréde, alfasse, fjon de korda, snaura
já lê´n dem kana 

passame kel assukra pem pô nesse kfizind´fovor, mnininha?

ilegal

me sinto viva ao ouvir
ao pé do meu ouvido
teus chutes na porta

digo isto e continuarei dizendo
enquanto te assisto
quebrando a fechadura da casa
sedento
pela nossa falta de documentos

mas
tínhamos 
título de residência e
ao final
de quatro horas
de despejo
tu pediu 
desculpa
e pareceu até
preocupado
ao perguntar
quanto tempo a gente ia 
ficar na rua

 - ameaça de despejo – 

substantivo masculino
ato ou coisa
se despeja
ato 
de evacuar

des-pe-jar

palavras relacionadas:
beber até a última gota
entornar
virar
deixar uma habitação
por ordem

ilegal

um te sinti vive kond um te uvi 
ne pê de uvid 
boj xute de porta

um te dzê e um te bem kuntinuá te dzê 
inkuent um te oióbe
te kebrá ftxadura dess kasa 
sedente
pe noj falta de dukment


nô tinha 
títle de residência e
nê final
de kuate hora
de despeje
bô pdi
deskulpa
e bô persse atê
priokupode
te perguntá
tonte tempe nô tava te 
bê fká ne rua

 - ameassa de despeje – 

substantive majkuline
ate ô koza
pô na rua
ate 
de evakuá

dej-pe-já

palavraj relasionode:
bebê atê últma góta
entorná
vrá
txá um habitasão
por ordem

Traduson de português Márcia C. Brito

Fotografia: Greta Rocha

carol braga

carol braga é escritora, historiadora e atriz nascida no Recife, Brasil. O primeiro livro, Minha raiva com uma poesia que só piora (Urutau, 2021), é semifinalista do Prémio Oceanos de literatura 2022. Autora da fanzine Imigrante (Chuvisco Editora, 2022), co-autora de Insulto à decência (Hecatombe, 2022) e da dramaturgia de Luanda-Recife (2022). Campeã Nacional do Festival Nacional de Poesia e Performance Portugal.SLAM! 2021, representou o país na Coupe du Monde de Poetry Slam 2022 em Paris, França. Com textos publicados em diversas revistas e antologias, é realizadora do podcast Baião de Duas: a boca do estômago, programa de poesia autoral de mulheres dos países falantes de língua portuguesa. https://caroltbraga.journoportfolio.com/#/

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