Jantar de família
aqui estamos
uma vez mais
reunidos,
Sempre,
prontos,
mas nunca decididos,
a implodir
este lar
movediço
no qual
diariamente
nos deitamos.
Jantar de fémilia
oli nój ei
maj um vej
reunide,
Sempre,
pronte,
má nunka desidide,
a implodí
esse lar
movedisse
ondê
tud dia
nô te detá.
Não há como meio amar.
Esse sentimento
só existe por inteiro.
Mesmo na ausência do objecto amado,
por morte
fuga,
assassinato,
ou na sua total repugnância
pelo nosso sentimento.
Podem proibir-nos as palavras,
o consumo,
cerrar as pálpebras,
a integridade do amor
resta intacta.
En dem kome mei amá.
Esse sentimente
sô te existí pur inter.
Mejmo ne ausênsia de kel objete amóde,
por morte
fuga,
assassinate,
ô ne sê total repugnânsia
pê noj sentimente.
Ej podê pruibi noj palavra,
kel konsume,
ftxá palpebra,
pê integridéde de amor
te restá intakte.
Velhos e irritantes
Quem nos vê
dois velhos militantes
que passaram juntos
A guerra
Não lado a lado
mas frente a frente
Neste campo chamado
relacionamento.
Foste
ferida, agulha de pontos, algodão de bolinha
desinfectante dos meus disparates.
Desempacotámos problemas
ao ritmo
de quem desembrulha
papel de bombom
nascidos
de uma jarra
sem fundo.
Cada ruga
minha
dobrou-se face a ti
e cada
cabelo branco
nasceu
admirando o teu rosto.
Por vezes
faço-me de surda
porque gostava de não te ouvir
por um dia.
Por outras,
imagino a tua voz,
entre os sons da rua e o lavar da loiça,
quando não estás.
Obrigada.
Obrigada pelos incontáveis dias
E pelos dias que contámos
na esperança que estes passassem.
Obrigada.
Pela companhia
Pela paciência e pela falta dela.
Pela companhia solitária
Entre dois jovens apaixonados
Entre dois velhos irritantes
E irritados,
Entre dois velhos apaixonados.
Vei e berrside
Kem te oiá bzot
doj vei militante
ek te passá junte
Pe guerra
Não lóde a lóde
má frente a frente
Nesse kompe txmode
relassionamente.
Bo foi
frida, agulha de ponte, algudão de bolinha
desinfêtante de boj xperet.
No desempakotá problemaj
ne ritmo
de kem te dsembrulhá
papel de bombom
najsid
dum jorre
sim funde.
Kada ruga
minha
te dobrá ne bo frente
e kada
kabel bronke
najsê
te admirá bo roste.
As vej
um te fazê de surda
mode um tava gostá de ká uvid
nem ke fosse pum dia.
Otxe vez,
Um te imaginá bo voj,
entre kej son de rua e o lavar da prote,
konde bo´ne de estod.
Obrigada.
Obrigada pe kej inkontavéij diaj
E pe kej dia ke nô kontá
ne xperansa dej passá.
Obrigada.
Pe kompanhia
Pe pasiênsia e pê falta del.
Pe kompanhia solitária
Entre doj jovem apaixonóde
Entre doj vei berrsid
E irritode,
Entre doj vei apaixonóde.

Traduson de português Márcia C. Brito

Cláudia Köver
Cláudia Köver é de Lisboa, com raízes alemãs e cabo-verdianas. Ganhou, em 2011, o prémio jovens criadores. Desde então, publicou extensamente em português e inglês. Após quase uma década em Bruxelas, trabalha hoje em desenvolvimento e educação no Ruanda. Trabalha, também, com colagens e ilustração e atreve-se, sempre que possível, a experimentar outras artes. Há quem diga que escreve coisas tristes e Cláudia Köver acredita que é isso que a mantém alegre. A arte escoa os males antes que estes se enraízem.
