Sentir
Encanta-me o vento
O cair das folhas
Encanta-me a luz dos teus olhos
E tudo o que deles reluz!
Doçura os teus lábios
Que fizeram outrora sonhar
Onde nada é novo eu já não quero ser quem fui
E quero tão pouco!
Que me deixe sem chão
Amante do ruído que turve o silêncio
a nossa visão
Que a nossa boca não diga nada
Mas que o seu tocar fale por nós tudo.
Poderia o nosso sentir ser paz
E resignar o mundo?
No meio da sede, no meio
Da destruição?
Nascer dos escombros vida
Lá viver e também rir,
Do tanto que pareça nada
E assim nada que nos faça emergir…
Sentir, só sentir
E ser só isso
O encanto da emoção
Mas dói-me a alma
Como a rispidez e o frio nas nossas noites de inverno
Em que nada aquece!
As tuas palavras são espinhos e tumulto o vazio
De quem já soube ser só!
Nada de ti
Nada de nós
Esse nada que nos faz ser tudo a dois
E outras a sós
Voltemos a ser brisa nesta imensidão
Içar velas, emaranhar nós
Quem sabe um dia pais e tios-avós
Sentir, sentidamente sentir.
Sintir
Tê inkantéme ess vente
O kair das folhas
Tê inkantéme kel luz de boj oi
E tude o ke dej tê reluzi!
Dossura boj besse
Ke fezê otrora snhá
Ondê nada é nove já-me ke kre ser kem kum fui
E um kre tão pok!
Ke bo txá-me sim txon
Amante de ruíde ek te turvá silênsie
ne noj visão
Ke noj boka ká dze nada
Má ke sij tokar te falá tude pur nôj.
Pudia nôj sintir ser paz
E resigná munde?
Ne meie de sede, ne meie
De destruissão?
Najssê de eskombre vida
Lá vivê e tambê érri,
De tante ke paressa nada
E essim nada ke nos fassa emergi…
Sentir, só sentir
E ser sô isse
Kel enkante da emossão
Má tê duê-me alma
Moda dureza e friu ne nôj noite d´inverne
Em ke nada te kessê!
Bôj palavra é espim e tumult ess vaziu
De kem já soube ser el só!
Nada de bô
Nada de nôj
Esse nada êke te fazê nôj ser tude a doij
E otxe a sós
Nô volta a ser briza ness imensidão
Issá velaj, ilhá nój
Kem sabê um dia paij e tius-avô
Sinti, sentidamente sinti.
Loucamente insana
Será irrelevante
Eu dizer que te amo
Se por orgulho ou por prudência
Tudo isto parecer insano
Se não formos mais do que sinais
Talvez queiras tu querer-me
Quando no asfalto me debruçar
Porque dizem os astros que o bom da vida
É ser-se louco e amar para além dos demais
Despir as nossas vestes
E revestindo-nos de dores e sentimentos
Que loucura louca é este o amor
Que de púrpura e escarlate faz morrer os deuses
Que dá de beber água a quem quer vinho
Que faz nascer esperança onde tudo parece ruido…
Porque te quero com calma,
Com leveza e alma
Quero-te no vazio que enche
Nas lágrimas e no riso eloquente
Quero-te ontem e amanhã
Quero-te na vil loucura das minhas manhãs,
E no cair da noite
Quero-te com a solenidade de ser
Insanamente sã
Loucamente insana
Será irrelevante
Um dzê kum te amob
Se pur orgulhe ô pur prudénsia
Tude isse perssê insane
Se nô ke for maj ki sinais
Tavez bô te kre ser bô a kre-me
Kond ne asfalte um debrussá
Mode te dzê kej astre ke o bom d´vida
É ser louke e amá pê além duj demaij
Txpi nôj veste
E revesti nôj méme ke dor e sofrimente
Ke loucura louk ê esse amor
Ke de púrpura e xkarlate te fazê morre kej deuj
Êke te dá àga pê kem kre vim
Êke te fazê najssê xperanssa ondê tude te parssê ruid…
Porkê um kreb kê kalma,
Kê leveza e alma
Um kreb ne kel vaziu êke te intxi
Nê lagrima e ne rise elokuente
Um kreb onte e mnhá
Um kreb ne vil loukura de nhej manhâ,
E ne kair de noite
Um kreb ke solenidade de ser
Insanamente são
Queria
Queria enumerar a solidão
No silêncio contornar a paixão
Ofegante das estranhas entranhas do ser.
De ti, quiçá de nós!
Este tanto deserto, dos acasos.
Tu, sem nunca estar verdadeiramente
Ao meu lado
Mas imagino que tudo o que foi
Voltará a ser.
No abraço, no peito vazio,
No beijo despido, no riso,
Na aurora nascente, no poente.
Dar-se luz, ser-se luz.
Na dança frenética dos nossos corpos.
Debruçados e nus.
Rir e chorar
Ainda assim continuar a dançar.
Parar e recomeçar mesmo que nos pareça o fim.
Um kria
Um kria númerá solidão
Ne silênsie kontorná paixão
Ofegante de entranhas do ser.
De bô, kiçá de nôj!
Esse tonte deserte, de akazoj.
Bô, sim nunka estdo verdaderamente
De nhê lode
Má um te imaginá kê tude u ke foi
Te bem voltá a ser.
Ne abrasse, ne peite vaziu,
Ne beje despide, ne rise,
Ne aurora najssente, ne poente.
Dá luz, ser luz.
Ne danssa frenétika de nôj korpe.
Debrussade e nuj.
Erri e txorá
Inda assim kontinuá te danssá.
Pê rekomessá mesm kê parssê nôj kê fim.
Traduson de português Márcia C. Brito

Dulce Semedo
Dulce Semedo é cabo-verdiana nascida e criada em Lisboa. Gestora administrativa em seguro de habitação no mercado francês. Emigrante como foram os meus pais antes de mim. Gosto da poesia, e o encanto que ela dá á minha existência, nem que seja pelo prazer de ser o que é ” Poesia” e o encanto das palavras e as suas tantas formas de expressão.
