ABELHAS

1
De que servem 
os ferrões às fêmeas,
se a vida curta
fica limitada à boca 
e às patas activas? 

Se por entre os pós florais, 
alimentam as larvas 
e depois desfalecem
agraciadas por minerais?

Um dia 
deixarão de transgredir
as flores nectarinas.

Irão para longe de casa
cheias de pó dourado 
e expectativa de iniciar
uma outra metamorfose.

2
Da fêmea vem a força 
que produz o alimento.

Ao iniciar o voo nupcial 
milhares de possibilidades 
ficam no seu corpo.

De grande porte, nunca concebeu
que a vida podia ser mais 
do que gerar ovos,
possança para criar rainhas,
que por sua vez respeitarão o ciclo
até à dissolução.

ABELHA

1
Dukê ek t servi 
ferron de kej fema,
se vida ê kurte 
te fka limitod à boka 
e pe ative? 

Se pur entre kej pô floral,  
te alimenta kej larva            
e txpuj desfelesê
agrasiod pe minerias?      

Um dia 
ej t txá de transgredi
kej flor nektérina.

Ej t bai p long de kase          
xei de pô dourod    
e expektativa de kmessá 
um ote metamorfose.

2
De fêmea te bem kel forsa
êk te produzi aliment.            

Ao kmessá kel voo nupsial      
milharej de possibilidêde 
t fká n sê korp.      

De grênde pôrte, nunka konsebê
ke vida pudia ser mêj 
du ke pô ove,
possanssa p kriá réinhaj,
ke por sê vej t bai respeita kel sikle          
atê dissolusão.

O MUNDO

Deixarei a mesa assim: 
com os girassóis, o mundo.
Tudo aberto, exposto. 

Todos os dias retornarei
aos heliotrópios, à terra,
para deles extrair esperança.

Na minha mesa,
onde crescem cristais 
e se limpam os anéis. 

Onde pouso a água 
e descanso as mãos. 

MUNDE

M tite bai txá mésa essim: 
ke girassol, ke mund.         
Tud ébert, xpost.

Tud dia m t bei voltá                         
pej heliotrópios, p terra,
pe dêj trá xperansa.

Ne nhe mésa,          
ondê ke kistal t kriá 
e anêl é limp.         

Ondê kum te pousá ága
e um t dexkansá nhej mon.    

Traduson de português Márcia C. Brito

Elisabete Marques

Elisabete Marques vive em Lisboa. Publicou três livros de poesia: Cisco (2014, Mariposa Azual), Animais de Sangue Frio (2017, Língua Morta) e Estranhos em Casa (2022, Língua Morta).

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