CASTIGOS DE DEUS

            Esta história tem mais de 100 anos, mas demora menos tempo a contar. Quem a menciona é o cónego Cirilo de Figueiredo, um erudito de temas viseenses, no seu vasto volume de memórias e curiosidades eclesiásticas Anais das Beiras (Coimbra, 1924). Tudo começou na Primavera de 1913, numa vila da Diocese de Lamego, perdida entre as serranias da Beira e as do Douro. A paróquia vagara há três meses, subitamente, e ostentava agora um novo padre, um moço de boas mas arruinadas famílias e de alto valor académico, que estudara Teologia em Coimbra e em Viseu. Chamava-se Jácome Coelho de Mesquita e teria pouco mais de 30 anos quando chegou à vila.
            O primeiro ano do padre Jácome correu sem sobressaltos. As pessoas começavam a aceitá-lo, se bem que muitas desconfiassem daquele jovem de ar místico e austero, de olhos esbugalhados e pele muito branca, tão entregue à sua missão transcendente. Havia quem sentisse saudades do velho Abade Teixeira, fulminado por um ataque de coração enquanto dizia missa no Dia de Natal, diante de todos os fiéis. Aquela morte pública, solene, dramática, num dia consagrado à paz e ao amor, impressionou o povo – e o abade Teixeira deixara boas memórias, incluindo afáveis conversas à lareira nos longos Invernos da serra. Além do mais, as homilias do padre novo eram longas e castigadoras, sempre a falar dos pecados mortais e a acusar as pessoas de praticarem mil vícios, deixando atrás de si um rasto de culpa e sofrimento. Havia quem dissesse que o padre Jácome, ainda jovem, quando estudava em Coimbra, escrevera uns poemas lúgubres que reunira num livrinho intitulado Sombras Fatais, mas que logo retirara de circulação.
            Tudo ia mudar na Primavera de 1914, quando, numa quinta-feira de Abril, logo a seguir à Páscoa, apareceu na igreja matriz uma rapariga embiocada, de aspecto semelhante ao de outras raparigas. Depois de assistir à missa do meio-dia, a moça deixou-se ficar e pediu para se confessar ao padre novo. Enquanto esperava, reparou no altar recheado de ouro e nas capelas com velhas pinturas do século XVIII. Comoviam-na os martírios dos santos, com os seus olhares de dor e sacrifício.
            Dez minutos depois, o padre Jácome recebeu-a na sacristia e mirou-a de alto a baixo. A rapariga era nova, de pele ainda borbulhenta, sem porte nem figura que dessem nas vistas. Tinha porém uns olhos grandes, pestanudos, angustiados, que pareciam cheios de uma tristeza antiga e sem remédio. Ela insistia em confessar-se naquele dia, tinha de ser naquele dia – e logo o padre Jácome a conduziu para o confessionário. Então, durante mais de uma hora, muitos foram os pecados que a moça lhe confessou – e muitas as penas que o padre Jácome lhe fez pagar. Ela falava em voz baixa, mas ele ouvia tudo, cada palavra – e quanto maiores eram os pecados, maiores as penas a que ele a condenava.
            Semana após semana, sempre às quintas-feiras, a rapariga voltava à igreja e confessava-se, plena de convicção. Os seus vícios eram cada vez piores – e ela parecia confessá-los como se o seu prazer não estivesse na maldade de os ter praticado, mas sim no momento em que depois os contava ao padre Jácome, com profusão de pormenores, no interior do confessionário:
            – Tu tens prazer em pecar, rapariga, e olha que esse é o pior dos pecados.
            Ela anuía, de cabeça baixa, e benzia-se três vezes. Depois, preparava-se para os castigos que ele a seguir lhe infligia. No fim, benzia-se mais três vezes e logo ia à sua vida:
            – Eu volto na quinta-feira, padre Jácome.
            Assim decorreram os meses de Verão, quentes e abafados. A moça lá ia confessar-se todas as semanas – séria, sisuda, compenetrada na sua peregrinação –, mas as mulheres mais velhas reparavam, até que uma vez discorreram entre elas sobre o padre novo e a rapariga que o visitava às quintas-feiras:
            – Alguém vai ter de pôr cobro a isto.
            – O mal foi a República, o mundo está perdido.
            – E o médico? Vamos falar com o Dr. Cardoso – sugeria a professora.
            – Esse é um bêbado, não adianta – respondeu a mais imponente de todas. As outras respeitavam-na por ser viúva de um coronel do Exército, mas de facto ela tinha razãoo médico era excelente pessoa, com um bom olho clínico, e sempre fora generoso com o seu tempo e a sua sabedoria – mas estava velho, à beira dos 70, e caíra no hábito do álcool. Além disso, era um espírito científico, sem amarras de religião, e para ele tudo aquilo não seria mais que uma intriga de sacristia. Por aí não valia a pena tentar fosse o que fosse.
            – E o boticário? – perguntou uma viúva muito dada a tisanas e a mezinhas de que só ela sabia o segredo.
            As mulheres sorriram num entendimento feito de censura, mas também de malícia – e a que falou erguia as sobrancelhas, com os olhos em alvo:
            – Ora, esse ainda é pior, é um mulherengo sem emenda. Muito a Dona Quitéria tem sofrido com ele…
            As outras concordavam. O boticário era competente no seu ofício, mas ganhara fama de pinga-amor, com uns olhos azuis de carneiro mal morto que seduziam solteiras e casadas – e talvez desgraçasse ainda mais a rapariga. Em todo o caso era preciso agir, fazer alguma coisa, e uma delas propôs que enviassem uma carta ao bispo – uma carta que todas teriam de assinar. Afinal, não tinham nada a perder. 
            Um dia, corria já o mês de Novembro, o padre Jácome foi chamado ao bispo, homem prudente e de larga sabedoria. Primeiro falou-lhe ao coração:
            – Eu gosto de si, padre Jácome, e fui amigo dos seus pais, que eram bons cristãos-velhos, tementes a Deus, mas que Ele já levou para o Céu.
            – Vossa Eminência permita-me que o corrija, mas o Céu está reservado para quem o merece, e eu creio que meus pais estão ambos no Purgatório. Há certos pecados que têm de ser castigados, e eu confio na justiça divina.
            O bispo não quis ir por aquele caminho e continuou sem mais rodeios:
            – Escute o que lhe digo, padre Jácome: eu sempre o considerei um homem de muita fé, cheio de vocação para o sacerdócio, mas as pessoas comentam…. Sim, é sobre essa moça que tem ido confessar-se consigo todas as semanas. O povo anda agitado com tantos abusos.
            – Não são abusos, Vossa Eminência. Pessoas como ela precisam de ser castigadas. Precisam e gostam. Tudo o que faço é para o bem da rapariga, daquela alma tresmalhada. – Hesitou um pouco e prosseguiu, triunfante– Se ela não precisasse dos meus castigos, não voltava pelo seu pé todas as semanas.
            – Como se soubesse o que a espera quando vai ter consigo.
            – Não, talvez ela não saiba o que a espera. Eu também não sei quais são os novos pecados que ela me vai confessar, e por isso preciso sempre de inventar novos castigos para esses pecados – e concluiu, cada vez mais seguro de si: – Só desta maneira ela pode aprender alguma coisa. Progredir no caminho da fé e da obediência. A obediência é essencial.
            O bispo não prolongou a conversa. Deixou passar o tempo, na esperança de que as coisas acalmassem, mas perto do Natal as intrigas continuavam, agora mais picantes. Indiferente a tudo, a moça lá ia todas as quintas-feiras. Após uma lista de pecados que relatava ao padre Jácome no segredo do confessionário, com ele se retirava para a sacristia e por lá ficavam os dois até à manhã seguinte, depois de uma longa noite de penitências.
            Ninguém sabia ao certo a natureza de tais penitências – protegia-as o sigilo que ligava a rapariga ao seu confessor. Alguns mais terra-a-terra ou de pouca imaginação diziam que, sendo ambos tão jovens, o padre e a moça estariam unidos pela prática do sexo; outros, menos carnais, garantiam que o padre Jácome e a rapariga passavam aquelas horas nocturnas a rezar terços e novenas à Virgem Maria, num testemunho de fé e de oração que apenas demonstrava a pureza das suas almas; outros ainda, mais perversos, murmuravam que ele a castigava e a amarrava com pesadas cordas, sujeitando-a a longas sevícias e a severos maus-tratos; e alguns destes últimos, certamente os mais fantasiosos, chegavam a descrever tais sevícias e tais maus-tratos com detalhes medonhos, escabrosos, repugnantes.
            Veio o Natal, acrescentando enredos às muitas histórias que as pessoas segredavam. Aquilo tornara-se um escândalo, era assunto falado nas redondezas – e não havia meio de parar. A moça sofria maus olhares quando aparecia na missa de domingo, ao meio-dia, e o povo não lhe dirigia a palavra. O novo ano começara, carregado de incertezas, até que, numa fria manhã de Janeiro, o bispo chamou-a e perguntou-lhe:
            – Porque pecas tanto, rapariga?
            – Preciso de pecar, senhor bispo. Preciso de pecar e de ser castigada. Sinto que tenho de pagar um preço pelos meus pecados. – Olhava para ele sem pestanejar: – Ou o senhor bispo não acha que os pecados devem ser castigados?
            – Sim, mas castigos a mais são só novos pecados – respondeu o bispo, para logo rematar: – E Nosso Senhor Jesus Cristo disse que os pecadores serão perdoados.
            – Eu não quero ser perdoada, senhor bispo. O perdão é para os fracos.
            Talvez a rapariga imaginasse que só castigos como os do padre Jácome a redimiam de tantos pecados – quem sabe? Havia nela um enigma qualquer, mas talvez tantas penitências lhe dessem uma noção de justiça que ela precisava de pôr à prova a cada instante, em cada novo pecado que praticava – e nos novos castigos que o padre Jácome logo imaginava com fervor:
            – Foi o Espírito Santo que te pôs no meu caminho, rapariga. És uma santa.
            – Eu sei, padre Jácome. Todos os dias agradeço ter encontrado alguém que me castiga assim. Eu preciso de ser castigada, faz-me bem ser castigada, desde criança que sempre soube isso… e desde que me confesso consigo tornei-me outra pessoa. Sinto-me mais perto de Deus, como se fosse uma santa.
            – Sim, rapariga, estás a ser uma boa cristã. E sabes que tens sempre de me obedecer para progredires na tua Via Sacra.
            A vida corria sem novidade, mas dois meses depois, por altura da Quaresma, o padre Jácome foi transferido para outra vila do mesmo concelho, a duas boas léguas de distância. De início, a mudança parecia ter dado solução ao caso, mas nem assim a moça desistiu de procurar o padre Jácome todas as semanas. Às quintas-feiras, muito de manhã cedo, metia-se ao caminho e lá ia ela, olheirenta de sono, a atravessar a serra e a percorrer montes e vales, até chegar pelo meio-dia à nova paróquia do padre Jácome, disposta a confessar-lhe todos os pecados e a sofrer todos os castigos. Com o tempo, tudo recomeçou – a mesma agitação, o mesmo falatório, a mesma urgência de acabar com aquilo.
            Os meses iam passando, soberanos, e em Maio o Governador-Civil inteirou-se do caso. Ao princípio não quis intervir. Ria-se até muito com a história, boa pilhéria para contar aos amigos, enquanto repetia que tudo aquilo era do estrito foro da Igreja, acrescentando que nem o padre nem a pobre rapariga conspiravam contra o Governo ou contra o novo regime republicano. Ficou todavia a ruminar no assunto: a verdade é que também ele não gostava muito daquele padre de aspecto seráfico e de olhos virados para o céu, que sabia grego e recitava de cor os Evangelhos. Então teve a ideia de contar tudo ao Abade da Vessada, homem de barbas brancas, venerado por todo o distrito. O velho interessou-se e foi ele a chamar a moça para o seu retiro. Vivia fora do mundo, como um eremita da Idade Média, a uma légua da vila, nas ruínas de um antigo convento abandonado pelos frades depois das guerras liberais:
            – Comigo podes falar à vontade, rapariga. Sou um homem velho, mais perto já da morte que da vida, e não te castigarei como faz o padre Jácome.
            – Eu sei, senhor Abade, e confio em si como confiava no meu pai que Deus tem.
            – Muito bem, rapariga. Diz-me então que pecados são os teus.
            – É segredo, senhor Abade. Só conto os meus pecados ao padre Jácome, mas são pecados mortais. Pecados que precisam de muitos castigos. Os castigos purificam-me, ensinam-me a sofrer. E o meu amor a Deus é feito dessa dor e desse sofrimento.
            – O sofrimento a mais é também um pecado, rapariga. E olha: quando o sofrimento vem ter connosco sem nós o procurarmos, então temos de o aceitar, sim…, mas não devemos ser nós a ir à procura dele. Isso é um grande pecado.
            A moça calou-se. O sábio observou-a com atenção e abraçou-a como se abraçasse uma filha que não tinha. A moça tudo aceitava, sempre cordata e submissa, e ele acrescentou algumas palavras de consolação:
            – O papel da Igreja é acolher quem sofre, rapariga. Eu sei que és pecadora, mas todos somos pecadores. Todos nós, ouviste? E com esses castigos só estás a pecar ainda mais. Entendes isto?
            – Entendo sim, senhor Abade. – Fez uma breve pausa e explicou: – Sei que estou a pecar ainda mais, mas são esses pecados que me vão redimir. Os meus castigos são justos, senhor Abade, são todos merecidos. Eu mereço ser castigada e quanto mais pecar, mais serei castigada. – Benzeu-se três vezes. Parecia agora quase em transe: – O padre Jácome diz que eu tenho de lhe obedecer e de cumprir tudo o que ele me ordenar. E eu obedeço-lhe sempre, obedeço a tudo o que ele me manda fazer, senhor Abade, sei que assim estou a ser uma boa cristã. Jesus Cristo também sofreu muito por nós, e eu preciso de sofrer. – Nesse momento lançou um olhar ambíguo ao Abade: – Quanto mais pecar e mais sofrer, mais posso vir a ser santa. Porque eu sinto que vou ser santa, senhor Abade, eu sei que vou ser santa, nasci diferente das outras pessoas.
            O velho escutou-a sem reagir e pôs-lhe a mão direita na cabeça:
            – Deus te abençoe, rapariga.
            A moça curvou-se e beijou a mão do santo homem antes de sair. Três meses passaram, na espessa modorra do Verão, e o escândalo só amainou a meio de Setembro, quando o padre Jácome deixou de o ser e teve de abandonar a Igreja Católica. Muitos na vila festejaram com alegria, embora outros tivessem pena de o perder, parecendo quase arrependidos de nada terem feito em sua defesa – mas agora era tarde para arrependimentos. O caso chegara às mais altas esferas do Patriarcado, talvez ao Papa Bento XV, e a decisão era clara, definitiva: o Padre Jácome tinha de sair.
            Disposto a mudar de vida, Jácome Coelho de Mesquita comprou então uma casa de pedra num lugar isolado, na encosta da serra, e aí se recolheu com a rapariga. Alguns diziam que ele aderira a ideias hereges, outros que se fizera comunista, o que há 100 anos era quase a mesma coisa. Os mais imaginativos asseguravam que o Padre Jácome se demorava na floresta com a rapariga, ambos ocupados em estranhos rituais que iam pela noite fora e em que faziam só-Deus-sabe-o-quê. Indo apenas aos factos, nada podemos saber com segurança – e com o tempo a lenda é sempre mais forte. A verdade é que três anos depois, numa noite agreste de Novembro, caiu uma tempestade sobre a região – e um relâmpago atingiu a casa.
            Castigo de Deus ou simples acaso da natureza? Ninguém sabe dizer, mas o raio tudo queimou e destruiu naquela casa. Desde esse tempo que ninguém lá mora – e talvez por isso lhe começaram a chamar a Casa das Almas Condenadas. Logo a seguir ao funesto episódio, a Câmara comprou-a para abafar o assunto, mas passaram décadas, governos, regimes, e a casa ainda lá está, em ruínas. Já tentaram vendê-la mas ninguém a quer, tão sozinha que fica, no meio do pinhal. Parece que a vista é assombrosa, mas alguns garantem que o lugar ficou assombrado por tantos pecados e tantos castigos – e ainda hoje o povo diz que em noites de lua nova podem ouvir-se os gritos da rapariga trazidos pelo vento, na encosta mais fria da serra.

Fotografia: Alfredo Cunha

Fernando Pinto do Amaral

Fernando Pinto do Amaral (n. Lisboa, 1960) é escritor e professor da Faculdade de Letras de Lisboa. Publicou cerca de 20 livros, entre poesia, ficção, ensaio e obras para a infância. Exerceu crítica literária, sobretudo no Público, no JL e na Colóquio-Letras. Traduziu poetas como Baudelaire, Verlaine e Jorge Luis Borges. Recebeu, entre outros, o Prémio do PEN Clube (Poesia) pelo livro Manual de Cardiologia (2016) e o Prémio Goya (Madrid, 2008) de Melhor Canção Original, pela letra do “Fado da Saudade”, no filme Fados de Carlos Saura. Comissário do Plano Nacional de Leitura entre 2009 e 2017. O seu livro mais recente é Última Vida (poesia)editado pela Dom Quixote em Maio de 2023.

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