Essa coisa névoa
Se levanto os dedos para pegá-la
Eles atravessam em cheio o ar
Como falar das partículas de água
que pontuam a minha pele?
Esse kosa névoa
Sum levantá dede pe pegel
Ej te travessá ar em xei
Kmanera falá de kej partikula de ága
êk te pontuam nhe pele?
Sete Cinco Um
Atenção
Roubaram uma menina
Levaram o seu corpo
Mas ela ficou
Eram duas da tarde
E o sol entrava pela janela
O bolo estava no forno
Ela de mãos no ventre
Deixando de ser criança
Deixando de ser adulto
Deixando de ser
Atenção
Roubaram uma menina
De apenas sete anos
Na televisão, passava o filme da Xuxa
E os vizinhos pulavam corda no jardim
Ela escondendo a pele, sentindo medo
Atenção
Ela não quer estar na rua
Mas o crime foi em casa
Roubaram uma menina na sua própria cama
Atenção
Ela chora, e não entende
Os rapazes jogam bola no asfalto
Ela não brinca, ela olha para baixo
Atenção
Roubaram uma menina às duas horas da tarde
O dia estava claro e o bolo no forno
Atenção
Estão roubando uma menina neste exato momento
Atenção
Sete Sinke Um
Atensão
Ej robá um mnininha|
Ej levá sê korpe
Sô kê el fká pe tréj
Era doj d´terde
E sol tava intrá pe janela
Kel bole tava ne forne
Ela de mon ne berriga
Te txá de ser mnine
Te txá de ser adulta
Te txá de ser
Atensão
Ej robá um mnininha
De apenas sete one
Ne tlevisão, tava te passá kel filme de Xuxa
E kej vzin tava te pulá ne sij jardim
Ela te eskondê sê pele, te sinti mede
Atensão
Ela ene kre estdod ne rua
Má krime bai ne sê kasa
Ej robá um mniniha ne sê propria kama
Atensão
Ela te txorá, ela ke te intendê
Kej mussim te isgá bola ne asfalte
Ela ke te brinka, ela te oiá pe boxe
Atensão
Ej robá um mnininha às duas da terde
Dia tava klor e bole tava ne forne
Atensão
Ej tite robá um mnininha ness exate momente
Atensão
O jogo de Filipe1
Faz falta o sacrifício como barganha
Proteina pura, que és
E ver espalhada no teto
A loucura de não ser louco
Manter uma alegria discreta
A carne perplexa e oral
Até o âmbito violento das linhas
Eu sei
O pequeno monstro
Se estende em bocas desbotadas
E o medo leva ao perigo da rua de Recife
Com apenas dois meses de idade
Não escandalizaria ninguém
A inocência de Ofélia
Muito reclusa e ainda sem filho
Com o gosto de água a exprimir
O fato verídico de ser talvez
Ao enveredar a hipótese
De alguém no mundo
Ela pede, provinciana: sou uma mulher a mais
1 Poema escrito a partir de uma técnica experimental utilizada pelo amigo e artista Filipe Garcia. Nela, emprestam-se palavras soltas de um livro folheado, a fim de construir uma nova linguagem. Estas palavras saíram da antologia de crónicas ‘Descoberta do mundo’, de Clarice Lispector.
Jogue de Filipe1
Tê fazê falta sakrifisie kome barganha
Proteina pur, kê bô ê
E oiá espaiod ne tete
Kel loukura de ka ser doide
Mantê um alegria diskret
Karne perplexe e oral
Atê âmbito violente de linhaj
Um sabê
Kel munstrin
Te intendel ne boka desbotod
E méde tê levá a perigue da rua de Recife
Ke apenas doj mêj de idede
Ká tava eskandalizá ninguêm
Kel inosênsia de Ofélia
Mut reclusa e inda sim fidje
Kê goste de ága te xprimi
Kel fakt veridiko de ser talvej
Ao enveredá kel hipótse
De alguém ne munde
Ela te pdi, provinsiana: mi ê um mlher a mej
1 Poema eskrit a partir duma téknika experimental utilizod pê nhe amig e artista Filipe Garcia. Nel, gent te imprestá palavraj solt dum livre folheod, a fim de konstruí um nove linguagem. Ex palavra sei d antologia de krónikas ‘Descoberta do mundo’, de Clarice Lispector.
Traduson de português Márcia C. Brito

Flávia Six
Flávia Six nasceu em 1994 e cresceu numa pequena cidade do sul do Brasil. Formou-se em Jornalismo pela PUC-Campinas e em Línguas, Literaturas e Culturas pela Universidade do Porto. Trabalha como comunicadora, fazendo da escrita uma ferramenta para criar diálogos e construir pontes. Tem textos publicados em revistas e antologias do Brasil e Portugal.
