01.03 – quarta-feira

“Maputo: suposto ladrão morre tentando roubar pato, o pato morreu também”. Eis a manchete ipsis litteris do jornal televisivo Casos do Dia, que acabo de flagrar no almoço dentro do restaurante do Índico Apart Hotel. Não consigo escutar os comentários do apresentador e das pessoas envolvidas, enquanto me pergunto se estou diante de uma tragicomédia diária, ou como poderia reagir à notícia como um todo. Talvez não haja reação única cabível, mas tudo depende de onde parte o olhar do telespectador diante do absurdo cotidiano. Ao mesmo tempo, lembro que uma coisa vem me fascinando nestes dias: as variedades do português dentro do país. À medida que caminho pelas cidades e converso com mais pessoas, começo a perceber uma diferença imensa de sotaques que parecem decorrer de pelo menos três aspectos que se mesclam: o primeiro é o país, já que há lusitanos, brasileiros e moçambicanos conversando num português que é sempre outro entre usos e sotaques; o segundo são os pais, porque o português pode ser uma língua materna por ser língua materna dos pais, mas pode também ser adotada por algum outro motivo, como por ser língua franca dos pais, ou porque os pais simplesmente não querem passar adiante suas línguas maternas; o terceiro caso é como o português entra como segunda língua, quer dizer, qual é o idioma materno e como ele influencia a articulação do português; neste último caso eu ainda incluiria um segundo detalhe, que é o grau de aprendizado do português: quanto tempo de escola, qual o uso diário etc. Digo tudo isso para confirmar o que já vinha intuindo desde os primeiros dias: não existe de modo algum um português moçambicano; ele é múltiplo, mesmo dentro de um espaço geográfico exíguo, múltiplo num modo que os vários portugueses do Brasil parecem encolher, apesar do vasto território e da população gigantesca. Algo no meu ouvido destreinado não consegue ir muito além no período que tenho, mas intui como pode, faz da precariedade o lugar do pensamento. 
Saímos cedo hoje. Na verdade, com um pequeno atraso, pois Ícaro, o filho mais novo de Christiane e Elilson, derramou café no próprio colo e se queimou um pouco, coitado, e com isso acabou nem indo para a escola. Felizmente não chegou a ser uma queimadura mais séria. Na cidade, Ivo, que depois descubro se chamar Ivódio da Costa, um dos funcionários da Ubuntu, se dispôs a me levar a pé até a grande feria de Juma, além de circular pelos bairros do município, dessa vez sem medo de sair com celular na mão e documentos no bolso. Começamos a caminhada lá pelas sete e meia da manhã, pela parte mais alta da cidade, descendo pelas ruas do bairro Triângulo. Ivo me explica que a cidade tem duas partes principais: uma chamada Mutiva, onde estamos, e outra chamada Manona, que começa do outro lado da Juma e se estende até bem longe; cada uma das partes têm cerca de vinte bairros, por sua vez subdivididos em quarteirões. A estrutura administrativa prevê um chefe para cada quarteirão e um líder, ou secretário, para cada bairro, criando uma série de hierarquias funcionais internas; e são cargos estabilizados pelo governo, já que suas funções envolvem confirmação de endereço e atividade dos moradores, além de outras funções burocráticas e administrativas que por vezes parecem um cartório ou tabelião. As ruas, quase todas de terra, desniveladas, podendo se desdobrar em ruelas, becos estreitíssimos, pinguelas, córregos e muito mais, por um terreno íngreme repleto de árvores e casas de tamanhos variados que me fazem pensar no que deviam ser as favelas cariocas dos anos 1930 e 1940 do século passado, com suas referências quase rurais, como Cantagalo, Mangueira, Salgueiro etc. Vou cumprimentando todos com Ivo até a casa de um líder, para me apresentar (repetiremos esse ritual em pelo menos mais quatro locais com líderes e chefes diferentes): entramos diretamente na casa do líder, onde está sua velha mãe, que parece compreender pouco ou nada de português, uma mulher mais jovem a amamentar um bebê que já passa de um ano de idade, e uma senhora de meia idade que cozinha uma papinha numa panela diretamente posta sobre a lenha do chão de terra enquanto nos explica que é para um doente; no caso, o próprio líder. Depois de um tempo, ele se arrasta até uma porta elevada para nos cumprimentar. Sofre de diabetes e acabou de perder uma perna; parece bastante abatido, porém sustenta o papel político e diplomático esperado, dando sua autorização para fotos do lugar e para eu caminhar à vontade por tudo. Nessa primeira conversa, compreendo perfeitamente que, ao longo do dia, Ivo não será apenas um guia por ruas onde eu não andaria sozinho: ele será um tradutor quase em tempo integral, porque nas comunidades da cidade a língua falada é mesmo o macua, ao passo que o português, como língua secundária, varia do domínio pleno aos rudimentos de palavras. Seguimos para o Juma. O termo merece uma conversinha: o nome vem do primeiro grande vendedor disso que chamam mercado e é, em termos brasileiros, uma enorme feira; mas Jummah, em árabe, também designa a sexta-feira, dia consagrado por ser o momento da criação do ser humano por Alá. É o dia tradicional das caridades, que deverei ver daqui a dois dias pelas ruas da cidade, e também da congregação na mesquita; porém, à diferença do domingo católico e do sábado judaico, não é um momento para pausar as atividades de trabalho e comércio. Então Juma é não uma, mas um Sexta-Feira, um nome que é um dia de semana (como o Friday, de Robinson Crusoé), que é também uma sacralidade, mas que se torna, no fim das contas, o nome regente das mediações e do comércio, um coligado, sem querer, com Hermes, Mercúrio ou Exu. A feira Juma, por sua vez, é um conjunto de centenas de vendedores, alguns em pequenas barracas, cobertas ou não, com muitas frutas, legumes, verdura, dispostos no chão, quase sempre sobre lonas pretas ou azuladas, ou dentro de bacias de plástico e metal. Passamos por vendedores de temperos, organizadores de mandiocas secas que já estão se tornando farinha por conta própria; mas também por casas de grãos, ou pelas peixarias onde o chão de terra vira uma verdadeira lama que serve como um corredor entre atuns, lulas e uma variedade de peixes de tamanhos, cores e cheiros diversos. Dentro da Juma também encontramos pessoas que consertam celulares numa barraquinha improvisada e superlotada de técnicos, ou computadores onde podemos comprar músicas em formato mp3 que, segundo os vendedores, compreendem os mais variados estilos de países que vão de Moçambique ao Brasil. Depois de atravessar a primeira parte da feira, chegamos à ponta que dá para a estrada, num espaço que incorpora também vendas de ferragens, lenha, carvão, roupas, sapatos, lonas que servem de telhados, cordas de palha, móveis de marcenaria, gasolina e diesel em pequenas garrafas plásticas a partir de um litro, chips de celulares, bugigangas em geral. O espaço inteiro está repleto de gente falando macua e interagindo, ao que Ivo me explica que, para os padrões gerais, o lugar está, na verdade, bem vazio. Passamos pelas cozinhas, também todas à lenha, onde mulheres preparam ensopados e peixes que servirão aos trabalhadores da feira, mas também aos compradores que estiverem com fome, num horário mais próximo do almoço. Por enquanto ainda é cedo, tudo está a caminho do meio dia.
Cruzando para o outro lado, entramos rapidamente na região da Manona, onde vamos conhecer a Escola Primária Socaju, onde conversamos com Carlos, o coordenador pedagógico, cujo sobrenome não anotei. Ele me confirma o modelo de monodocência, com um professor acompanhando todas as disciplinas de uma determinada turma e, idealmente, perfazendo todos os anos do ensino primário com uma mesma turma, do primeiro ao sexto ano. Pelo modo como fala, há realmente uma sobrecarga dos professores, que precisam preparar variados conteúdos para cada dia, em disciplinas diferentes como matemática, português, ciências naturais e ciências sociais, além da educação física. Fico sabendo que, nas escolas primárias em regiões mais centrais, o governo não oferece merenda nem almoço às crianças, que devem vir com o mata-bicho (café da manhã) feito e voltar para casa para almoçarem, ou então já chegarem almoçadas, se estudam no turno vespertino. A escola, que não apresenta vidro em quase nenhuma das janelas, além de exibir paredes bem descascadas e pedaços ruídos, entre mangueiras que oferecem uma sombra agradável para uma vista aberta sobre a baía, abriga quase dois mil e quinhentos estudantes para menos de cinquenta professores. A conta por si só me espanta. Carlos, antes de terminarmos a conversa, quer saber uma última coisa: nos outros países os professores com mais formação pessoal também ganham maiores salários? Entendo que ele está falando de tabelas salariais por tempo de formação (ensino escolar, graduação universitária, mestrado e doutorado); por isso confirmo a ele que sim, ao menos no caso do Brasil, o que parece deixá-lo realmente curioso com o modelo de remuneração por formação. Não consigo conter meu estranhamento por ele me questionar algo que parece óbvio; no entanto dou o assunto por encerrado, para podermos prosseguir nosso passeio. 
Voltamos a passar pela Juma, num ponto onde à direita da pista central reparo na construção de uma laje com pelo menos vinte trabalhadores ao mesmo tempo, em torno de uma única pequena betoneira. Aos meus olhos, parece um mutirão comunitário, não fossem as roupas com ares de uniforme dos pedreiros; Ivo então me conta que fazem assim para conseguirem finalizar mais rapidamente a laje, contratando muitos empregados de uma vez. Diante dessa cena curiosa, decido parar e tiro uma foto à distância; e num instante parte dos trabalhadores nos chamam exaltados, fazendo um auê pela fotografia digital, um deles chegou a dizer que iria me cobrar três mil meticais, enquanto outro ficava aparentemente furioso e por aí vai. Ivo, tranquilo com tudo, sem muitos argumentos ou enfrentamentos, apenas me chamou para seguirmos o caminho, como se nada estivesse acontecendo; e eu, um pouco confuso com tudo aquilo, concordei sem convicção. Uns metros adiante, ele me explica que tudo não passa de uma grande cena para ganhar alguns meticais com nosso susto. Nada que eu deva levar a sério. Se assim ele diz, assim eu sigo, enquanto um homem da casa ao lado grita para todos retornarem ao serviço e pararem de confusão. Penso cá comigo: “confusão” é um significado para o nome de Babel, nas Bíblia. Um babélico furdunço aqui, mesmo se estivermos todos falando em português. 
Entramos outra vez pelo Triângulo, dessa vez para conhecer uma estrutura que é uma espécie de caixa d’água estrutural enorme e também uma espécie de poço, que salvou muitas pessoas num período de grande estiagem e falta d’água em Nacala. Ali encontramos uma mulher lavando roupa e mais uma carregando um balde cheio na cabeça, como tantas outras que cruzaram o nosso caminho entre becos que vão se fazendo de terra, areia, pedra e, vez por outra, pura rocha. Ivo diz que nem nas piores secas esse lugar ficou sem água; e que, por isso, sempre que há alguma estiagem, ele se torna quase um ponto de peregrinação de gente que, mesmo a quilômetros de distância, vem buscar ao menos uma lata d’água para levar na cabeça para casa. Num gesto de tradução entre tempos e espaços, penso imediatamente numa velha marchinha carnavalesca do Brasil, “Lata d’água”, de Candeias Júnior, canção que pinta uma cena que já foi muito comum nas nossas cidades grandes; no caso, no Rio de Janeiro, então capital do país:

Lata d’água na cabeça
Lá vai Maria, lá vai Maria
Sobe o morro e não se cansa
Pela mão leva a criança
Lá vai Maria

Começando o retorno, passamos pela casa do próprio Ivo, no quarteirão sessenta e nove do Triângulo, com uma outra vista embasbacante da baía, sob a sombra de uma mangueira e uma moringueira, onde ele deixa as chaves para sua esposa, que está fora trabalhando. Ali descubro que, morando há mais de dez anos em Nacala, depois de vir de Nampula em busca de melhores oportunidades, ele está casado e tem duas filhas, uma de sete e outra de cinco anos, que não tive a oportunidade de conhecer. O calor já vai ficando insuportável, perto do zênite; então decidimos retornar à Ubuntu, subindo por dentro do morro, até chegarmos a uma rua mais larga onde zune um novo mercado aberto. Por todo o caminho, apesar do lixo espalhado por tudo, em ruas, matas, valetas, casas e riachos, encontrei quase só olhares de acolhimento, com muita alegria das crianças que me cumprimentavam chamando de “tio” ou “papá” (os dois termos em sentido respeitoso e diverso do que poderiam assumir no Brasil) a este nkunya (homem branco que sou para eles, do norte, e já não mais o mulungu do sul), ou adultos que perguntavam se eu não estava ali à procura de cabanga (kabanga, mas descubro que também existe a pronúncia kapanka), o fermentado caseiro que fazem em alguns bares por onde passamos, ou pombe, outro fermentado igualmente artesanal. Curiosidade até tenho, mas o calor desanima: sinto os dedos inchados e ardentes, bem como as costas preguentas na camisa. Um último ponto fascinante: cruzamos uma região conhecida como Bispo, que é o cemitério do Triângulo; no entanto, diferente de todos os outros cemitérios que conheço nos pontos urbanos, este fica no meio do caminho entre as casas, com alguns túmulos cobertos de mato e plantas, quase colados às paredes dos lares, ou já entrando nas machambas pessoais. Lembro na hora que Christiane me contou ontem como os mortos, que aqui são referidos como “desaparecidos fisicamente”, estão presentes de um modo muito singular, com seus nomes recentes escritos sobre a cal. O que significa esta proximidade física do cemitério, com lápides quase coladas às paredes das casas? Haveria muito mais a tentar transcrever e compreender desta manhã; só que um diário não suporta, e mal cheguei à hora do almoço.
Pela tarde, fazemos uma espécie de primeiro encontro-sarau na Ubuntu Educacional, que Christiane pretende repetir toda primeira quarta-feira de cada mês. Armaram um gazebo na calçada em frente à loja (o que custou uma soma junto à prefeitura), convidaram pessoas e prepararam um pequeno lanche. Numa cidade claramente cindida, em que a cultura letrada se faz uma ilha diante da cultura oral das ruas, não foi para mim surpresa ver que resultamos em oito pessoas: eu mesmo, Christiane, Ivo, Melis Honório dos Santos (o outro atendente da loja), a jovem Arlete Raja, recém formada em Psicopedagogia, o veterano Guilherme Nkali, também psicopedagogo de 73 anos, e a dupla Raimundo Raja Sirage e Salomão Alberto Savano, dois representantes do grupo de dramaturgia Teatro Ikano. O plano era conversar, para que cada um se apresentasse e lesse o que bem quisesse. Christiane abre a roda com a leitura de um conto infantil sobre criatividade e fantasia. Raja apresenta-se como uma amante dos livros e figura de esperança, que escreve esporadicamente a partir das suas impressões diárias, sem, no entanto, mostrar nada para nós naquele momento. Os dois dramaturgos e atores encenam uma micropeça em português sobre a necessidade de ter conhecimento antes de criticar, e em seguida (a pedido meu) outra em macua, sobre a importância da escola; comentam como o grupo Ikano, que quer dizer “conselhos” em macua e pretende de fato ter uma função didática e sapiencial para as comunidades, por isso usam as duas línguas, a fim de atingir o maior público possível; dizem que ainda é um trabalho incipiente, mas transmitem um desejo marcado e têm uma capacidade de atuação absolutamente vivaz. O senhor Nkati comentou sobre o seu trabalho voltado para a formação professores que pensem mais nas crianças, seja nos centros urbanos, seja na zona rural, e disse não ter trazido nenhuma das crônicas que escreve com regularidade. Eu contei um pouco do que me trazia a Moçambique e entoei dois cantos do candomblé brasileiro que traduzi no modelo de recantamento com André Capilé: um em quimbundo, para Pambu-Njila, e um em iorubá, para Exu Odara. Diante dos meus cantos tradutórios, Nkati percebeu a possibilidade vocal do encontro e decidiu cantar uma canção que aprendeu com seus tios de Niassa quando criança, na língua nianja (cinyanja); é um canto bonito que vai dando forma às vidas, partindo da água até chegar à pluma de um filhote de pássaro que pousa sobre o galho. Ouvindo o canto, Christiane recorda-nos que o fundador dos escoteiros, Baden Powell, bem poderia ter bebido nessa tradição, pois existe uma canção inglesa, “The tree in the wood” (e também uma tradução brasileira, “A árvore no bosque”), que faz o mesmíssimo movimento de repetição, ampliação e refrão, embora a melodia não seja idêntica. Diante das possibilidades, Nkati se pergunta quem teria influenciado quem, e assim ficamos sem respostas, mas curiosos pelos entrecruzamentos tradutórios ali sugeridos. Ivo recitou um poema da sua lavra escrito em macua e depois sua própria tradução ao português, numa linguagem delicada, singela e modesta, sobre o mundo da roça e da pesca; fiquei muito interessado com esse gesto de autotradução, presente também nos meninos do teatro, e muito mais raro em Moçambique do que eu jamais imaginei. Como ele me passou, dois dias depois o texto e a tradução, aqui a transcrevo, desconfiando que não está numa ortografia padronizada:

Makalelo oyane

Insua pode optha
Epula pode ourupa
Oumatha kenoroa
Pode iririua
Opareia kenoroa.

Olima
Kinisuela
Kavouco
Kinivora.

Kirupuela niyuko nochepa ou nourura
Amuaraka kiarere oukalala
Mim murima ou kiripa
Hupuela opareia.

Kairou hepa wigiso
Ovora kivouko otana
Iwso iwkinakiso
Kiniroromela kiana Ana
Ana kirinaca anakela muteco.

Oh hakalala ethoco na Costa
Ewou namurua, onu nacua
Oruca etiho ya Costa.
Enou yopa, paiwhatha echoca
Otatha ya ethoco ya Costa
Nihikune elulu ca yopa
Etofo kaina ela makalelo
Oyane.

O viver da minha terra

Faça sol
Faça chuva
Lá vou à machamba
Que haja calor
Que haja frio
Lá vou à praia.

Cultivar sei
Pescar sei
Me lembro
O dia da colheita
A minha mulher ficou feliz
Eu infeliz.

Por pensar a pesca
Fui à machamba de manhã
E de tarde fui à praia
Assim dobrei a linha
A família sorridente.

Há alegria da família na cota
Muito feijão, muita maçaroca
Frutos de pais camponeses
Muito peixe e lagosta
Frutos de pais pescadores.

Naquele dia alarido tocava
O tufo dançava, foi o momento
De alegria.

O viver da minha terra.

Por fim, Melis relatou sua trajetória, como é filho de pai moçambicano que estudou em Cuba depois da Revolução e de mãe anglófona (penso que não nos contou de qual país vizinho ela veio), e como também foi criado numa estação governamental em que o que se falava era um português anglicizado com toques de línguas moçambicanas e vizinhas, até ele mais velho começar a pesquisar tradições espiritualistas para ajudar jovens desajustados, isso tudo antes de num rompante decidir se jogar na aventura de vir para Nacala. É mais uma dessas histórias fascinantes de encontros e desencontros linguísticos, que vão se tornando uma quase normalidade para a minha escuta curiosa. Foi, ao fim, um encontro pequeno, mas um deleite raro, dessas trocas que acontecem poucas vezes. Sorrimos, comemos, tocamos nossas vidas enquanto o sol se punha. Espero que Christiane consiga dar continuidade a esses saraus, para estabelecer mais possibilidades literárias na cultura da cidade. 
À noitinha, preciso fazer um contra-argumento dos processos de escrita e fala. Muitas vezes compreendemos pouco como o ouvido treinado numa língua tem dificuldades para tentar transcrever outra, e muito mais quando se trata de duas línguas com grande diferença fonológica, fonética e gramatical. É o que encontramos quando lemos a gramática de tupi de Anchieta no Brasil, ou a do guarani escrita por Montoya no Paraguai; ou mesmo quando lemos as transcrições das línguas indígenas por franceses etc. Cada um escuta e, portanto, escreve a língua do outro segundo as regras de escrita da sua própria língua, mas também segundo sua própria capacidade auditiva e fonativa de realizar a língua do outro. Costumamos levar isso pouco em consideração, como se a experiência linguística fosse para todos um dado empírico sem equívocos de toda ordem. Daí é que vem a necessidade de gramáticas, dicionários e padronizações de escrita feitas por falantes nativos que tomam conhecimento dos modos possíveis de pensar uma língua; eles é que podem estabelecer critérios que levem em consideração uma escrita literária e um aprendizado na literacia. Aqui em Nacala, como um exercício de inversão dessas escritas europeias para línguas americanas e africanas, pude ler o português escrito por pessoas que só tiveram uma formação inicial da língua europeia, como as regras de escrita, e que, no entanto, as adaptam à sua própria vocalização do português. Ou seja, têm um letramento, mas guardam nele sua própria experiência de conversação e entendimento. É o caso de Nazarieh, um guarda que trabalha na casa de Christiane. Transcrevo aqui uma mensagem de celular: 

Bom dia sihora agi ficamuxu sen neregia agapo 2 resepemuxu fatura fipagi dia 4 mexi pasatu

Escrita num celular antigo, e não num moderno smartphone, ela tem seu quê de telegrama, que torna tudo também conciso pelo modelo comunicacional. Esse ponto importa muito menos. Agora, se consideramos a escrita, é gritante como não se trata precisamente nem de analfabetismo, nem de desconhecimento da língua, mas antes de uma transcrição que usa as regras para marcar a pronúncia tal como ela é escutada pelo ouvido macua. Posso transcrever o texto para “Bom dia, senhora; aqui ficamos sem energia. Acabou [às] 2. Recebemos [a] fatura, foi paga dia 4 [do] mês passado.” O que Nazaré faz é perceber sua própria pronúncia, derivada do macua, que é sua língua materna; por exemplo, essa contaminação elimina quase todas as sílabas travadas como “eneRGia”, “ficamoS/ recebemoS”; do mesmo modo, ela transforma chiados lusitanos do português em uma sílaba a mais, com mais uma vogal (“mexi” para “mês”, ou “ficamuxu” para “ficamos”). Para a minha leitura destreinada dessa grafia, a pronúncia em voz alta do texto de Nazaré revela exatamente o que venho encontrando dia a dia nas falas das ruas. Por exemplo, na Juma, um jovem que me via fotografando o descarregamento de um caminhão de bananas imediatamente perguntou: taxi filimari? Desatento e pego de surpresa pela intervenção interrogativa, julguei na hora ser alguma fala em macua de alguém que não tinha percebido minha estrangeiridade; para, num instante depois, compreender que o que ele me questionava era “estás a filmar?”, seguindo as mesmíssimas regras que encontro na escrita (ou transcrita) de Nazarieh. De um jeito ou de outro, a crioulização das línguas desvela caminhos inúmeros já sendo trilhados e ainda por trilhar. Há um português por crescer nesta terra, que já é todo outro e vive muito bem; só precisamos aprender a ouvi-lo, aprender a lê-lo; sabê-lo em sua arte.

Do livro Murima da Luz: um mulungu em Moçambique

Guilherme Gontijo Flores

Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é poeta, tradutor e professor na Universidade Federal do Paraná. Autor dos livros de poesia carvão :: capim (2017 em Portugal, 2018 no Brasil), Todos os nomes que talvez tivéssemos (2020), Potlatch (2022), Entre costas duplicadas desce um rio (2022, com François Andes), Seu dedo é flor de lótus (2023), dos ensaios Algo infiel (2017 com Rodrigo Gonçalves), Que sabe de si (2023) e do infanto-juvenil A Mancha (2020, com Daniel Kondo). Publicou traduções de Enheduana, Safo, Horácio, Propércio, Rabelais, Robert Burton, Celan. Com André Capilé lançou em 2022 a dupla de livros Tradução-Exu (ensaio) e Uma A Outra Tempestade (uma tradução-exu de Shakespeare e Aimé Césaire). Membro do grupo Pecora Loca.

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