BRECHT
Realmente, ele viveu em tempos obscuros.
Os tempos clarearam-se
Os tempos obscureceram-se
Quando a claridade diz eu sou a obscuridade
Ela disse a verdade.
Quando a obscuridade diz eu sou
A claridade, ela não mente.
BRECHT
Dvera, dvera el vivê num temp objkur.
Má temp klareá
Temp t eskuressê
Kond klarided t dzê mi ê obskurided
El flá verded.
Kond obskurided t dzê mi ê
Klarided, el ke tit´fla mintira.
PEÇA DE MEDEIA
Uma cama desce da teia e é colocada de pé. Duas mulheres com máscaras mortuárias trazem para o palco uma jovem rapariga e instalam-na de costas na cama. Vestir da noiva. Atam-na à cama com o cinto do vestido de noiva. Dois homens com máscaras mortuárias trazem o noivo e põem-no de cara voltada para a noiva. Ele faz o pino, caminha sobre as mãos, pavoneia-se frente a ela, etc.; ela ri silenciosamente. Ele rasga o vestido de noiva e toma lugar ao lado da noiva. Projecção: acasalamento. Com os farrapos do vestido de noiva as máscaras mortuárias homens atam as mãos e as máscaras mortuárias mulheres os pés da noiva às extremidades da cama. O resto serve de mordaça. Enquanto o homem, frente ao seu público feminino, faz o pino, caminha sobre as mãos, pavoneia-se, etc., o ventre da mulher incha até que rebenta. Projecção: parto. As máscaras mortuárias mulheres tiram uma criança do ventre da mulher, desfazem os seus nós e metem-lhe a criança nos braços. Durante esse tempo as máscaras mortuárias homens cobriram-no de tal modo de armas que o homem não pode mais mover-se senão a quatro patas. Projecção: massacre. A mulher desvia o seu rosto, desfaz a criança e atira os pedaços na direcção do homem. Da teia caem sobre o homem restos de membros entranhas.
PÉSA DE MEDEIA
Um kama te txi dum teia e lê pust de pê. Doj amdjer kunsj majkra mortuaria trazê pe palk um mnininha nova e ej pol d kosta n kel kama. Psti kel noiva. Ej marral ne kel kama ke kel lósse de kel pstid d´noiva. Doj mosse ke majkra mortuaria traze kel noive e ej pol ke kara voltod pe sê noiva. El fazê um pine, el anda de kabeça pra boxe, e el pavoniá ne frente dela, etc.; ela erri sem faze barulhe. El ratxa kel pstid de noiva e el detá de lod de sê noiva. Projesão: akazalamente. Ke kej farrop de kel pstid kej majkra mortuaria home marrá kej mon e kej majkra mortuaria amdjer marrá kej pê de kel noiva ne ponta d´kama. Kej rest sirvi de mordassa. Inkuente iss, kel home, de frent pe se publiku femnine, el fazê pine, el anda de kabeça pra boxe, el pavonieá, etc., barriga de kel amdjer bê te intxa atê expludi. Projesson: parte. Kej majkra mortuaria amdjer trá um mnine de barriga d kel amdjer, ej dejmarrá kej nô e ej metel kel mnine de ragosse. Durent ess temp kej majkra mortuaria home kubri kel mosse de tal forma k armas kel ke tava kunsegui maj mexê a não ser de kuat pata. Projesson: massakre. Kel amdjer desviá kara, exterssalhá ke mnini e el ptá kej padosse de diresson de kel home. De kel teia kei d´rriba de kel home reste de membroj entranhaj.
SABÃO EM BAYREUTH
Para Daniel Barenboim
Criança ouvia os adultos dizerem:
Nos campos de concentração fazem sabão
Com os judeus. Depois sempre tive antipatia
Pelo sabão e detesto o cheiro a sabão.
Hoje estou a encenar TRISTÃO e habito
Num apartamento moderno da cidade de Bayreuth.
O apartamento é asseado como nunca tinha visto
Tudo está no seu sítio: As facas As colheres Os garfos
As panelas As frigideiras Os pratos As chávenas A cama dupla
O chuveiro, MADE IN GERMANY, acordaria um morto.
Nas paredes um kitsch floral e alpino.
Aqui a ordem reina, mesmo a verdura atrás da casa
Está em ordem, a rua silenciosa, em frente o HYPOBANK.
Quando abro a janela pela primeira vez: o cheiro a sabão.
A casa o jardim a cidade de Bayreuth cheiram a sabão.
Sei agora, digo eu face ao silêncio,
O que significa habitar no inferno e
Não ser um morto ou um assassino. Aqui
Nasceu AUSCHWITZ no cheiro a sabão.
SABOM NE BAYREUTH
Pê Daniel Barenboim
Mnine um tva uvi gente grend te dzê:
Ne komp de konsentrasão ej te faze sabom
Ke judeuj. Depoj sempre um tive antipatia
Pe sabom e um te odia txer de sabom.
Hoje um tite ensená TRISTÃO e um te vivê
Num apartamente moderne ne sidade de Bayreuth.
Kel apartament é limpim moda ke nunca um oiá.
Tude ne sê lugar: Kej faka Kej kelher Kej gorf
Kej pénela Kej frijdera Kej prot Kej kaneka Kej kama dupla
Kej xevere, MADE IN GERMANY, até um mort tá kordá.
Ne pêrede um kitsch floral e alpine.
Ei ordem te reiná, até kej virdura trêj d´kasa
T´em ordem, kel rua kéte, ne frent de HYPOBANK.
Primer vej kum abri janela: kel txer de sabom.
Ess kasa ess jardim ess sidede Bayreuth te txere sabom
Gó um sabê, um te dzê fasse a ess silensie,
U´ke te signifiká habitá infern e
Ka ser um mort ou um assassine. Ei
E´ke najsê AUSCHWITZ ne txer de sabom.
FLORESTA EM SONHO
Esta noite atravessava uma floresta a sonhar.
Ela estava cheia de horror. Seguindo a cartilha
Os olhos vazios, que nenhum olhar compreende
Os bichos erguiam-se entre árvore e árvore
Esculpidos em pedra pelo gelo. Da linha
De abetos, ao meu encontro, através da neve
Vinha estalando, é isto um sonho ou são os meus olhos que a vêem,
Uma criança de armadura, coiraça e viseira
A lança no braço. Cuja ponta faísca
No negro dos abetos, que bebe o sol
O último vestígio do dia uma seta de ouro
Atrás da floresta do sonho, que me faz sinal de morrer
E num piscar de olho, entre choque e dor,
O meu rosto olhou-me: a criança era eu.
Ver videoclipe oficial aqui
FLORESTA Em SONHE
Ess note um tava te travessá um floresta te snhá.
El tava xei de horror. Tê sigui kartilha
Ke oi béziu, ke ninhum olhar te kumpreendê
Kej bitxe tava ergui entre árve e árve
Eskulpid ne pedra de gel. De linha
De pinher, te bem ter k´mim, atravêj de neve
Te bem te estalá, ê iss um sonhe ô ê nhej oi ek tite oi´el,
Um mnine de armadura, koirassa e vizera
Ke lanssa ne brosse. Ke ponta te faiská
Ne kel negrura de kej pinher, ek te bibê sol
Kel ultimo vestigie dess dia um seta d´ore
Tréj de kel floresta de sonhe, ek t fazeme sinal de morte
E num piskar d´oi, entre xoke e dor,
Nhê roste oiá p mim: kel mnine era mim.
Tradução Adolfo Luxúria Canibal, publicada no livro Poemas (1949-1995) de Heiner Müller
Traduson de português Márcia C. Brito

Heiner Müller
Heiner Müller (1929-1995) foi um dramaturgo alemão, dos maiores depois de Brecht, nascido em Eppendorf e falecido em Berlim. Com 4 anos, viu o seu pai, opositor ao regime de Hitler, ser preso pelo exército nazi. Em 51, escreve, com Inge Müller, O Fura-Tabelas e A Correcção. Em 61, depois de proibida a encenação de A Emigrante ou A Vida No Campo em Berlim-Leste, Müller é expulso da Associação dos Escritores. Consequência de proibições e expulsões, o trabalho de Müller foca-se em metáforas míticas e históricas. Traduz Shakespeare, Molière, Tchekov, Pogodin e Césaire. Desta fase, são Filoctetes (1958/64), Hércules (1964), Édipo Tirano (1966) e Os Horácios (1968). Morte em Berlim (1971), A Batalha (1974), Quarteto (1980) e Germania 3 (1995), última peça. Serviu de inspiração a um espetáculo e álbum dos Mão Morta: Müller no Hotel Heissischer Hof (1998).
