Processo criativo:

um cavalo que lava louças:
cotidiano de um recorte 
de jornal
que nos faz companhia
toda a vida

Deus está sob a terra

Na última página, uns versos
rascunhados em 2009,
que estrearão um espetáculo
do século XXII,
em que a reencarnação
de Calcilda Becker
triunfa diretamente
de Marte.

Prosesse kriative:

um kavol ek tê lavá prot:
kotidiane d´um rekort
d´jornal
ek te fazê noj kumpénhia 
tud vida

Deuj tê d´boxe d´terra

Ne últma págna, unj verse
raskunhe ne 2009,
ek t bai extreá um espetákle
de séklu XXII,
em kê reenkarnason
de Calcilda Becker
tê triunfá diretamente 
de Marte.


a guilhotina do 
meu pulso
um relógio
um corvo
um nebuloso murmúrio
um beijo na fresta 
nações falsas,
mãos sem sangue

meu relógio
roubou o meu pai
o crescimento dos meus sobrinhos,
meu corpo vigoroso
os anos em que percorria a esperança
meu povo comia
e o lume não devorava o Pantanal.

O corvo 
perto
dentro
meu coração é um fígado
à procura de mais

guilhotina de 
nhê pulse
um relôjie
um korve
um nebulose murmúrie
um beje ne fresta 
nasões folse,
mon sim séngue

nhe relôjie
robá nhê pei
kressimente de nhes subrim,
nhê korpe vigorose
kej one em kel tava perkorrê xperansa
nhê pove tava kmê
e lume ke tava dvorá Pantanal.

Kel korve 
perte
dente
nhê kurasão ê um fígde
a prokura d´mêj


ternura em tragédia,
já narrou a Grécia,
provoca beleza,
mas haja stress.

ternura em tragédia,
já narrá Grécia,
provoka beléza,
má haja stress.


Não ter medo
do corpo
do outro 

Fazer amor com os esqueletos.

De que adianta se misturar até se apagar,
se o tesão vem de ver
o outro
tornar-se profundamente vivo?

Desaprendi a transar.
Tenho um metro e setenta e cinco de ossos,
preciso que eles admirem
quem age para ser
quem escolheu.

Sou Quem assusta a menina que foi com a mulher que é.
E conversa com ela.
E coloca no colo.
E confia na vida.

Quem orgulha a velha que será. 

E faço amor comigo.

Tenho dentes, dedos e articulações
eróginos verbais
que sobreviveriam
mil anos
no fundo do Oceano.

Amar é limpar a merda de alguém com a mão.
Lamber o rosto como passarinho,
catar piolhos,
pentear.

Quero fazer amor com o menino e o velho que moram no meu homem.

E devolver em espelhos a luz do tempo, 
refletida no calendoscópio do meu clitóris eterno.

Ká ter méde
de korpe
d´ote 

Fazê amor ke kej xkelete.

Du ki adianta misturá até bo fka apagod,
se tesão te bem de oiá
kel ote
vrá profundamente vive?

Um desaprendê transá.
Um tem um metre e setenta e sinke d´osse,
um presizá kej admiréme
kem t´éji pe ser
kem kel eskolhê.

Mi ê kêm tê xpantá kel menininha ek bai ma kel amdjer kel ê.
E konversá má el.
E te pol ne ragósse.
E el te konfiá ne vida.

Kem te orgulhá kel velha kel tite bai ser.   

E um te faze amor ke mim mesmo.

Um tem dente, déd e artikulasões 
eróginos verbais
êk sobrevivê 
mil one
ne funde de Osiáne.

Amá ê limpá merda de alguém k´mon.
Lambê roste moda psserim,
katá pioi,
pentiá.

Um krê fazê amor kê kel minine e kel vei ek tê mora dente de nhê home. 

E devolvê em espelhe kel luj de tempe, 
reflétid ne kel kalendoskópie de nhe klitóris eterne.

Traduson de português Márcia C. Brito

Maria Giulia Pinheiro

Maria Giulia Pinheiro (São Paulo, 1990). Vencedora da edição de 2022 do Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina com “Isso não é relevante”. Em 2020, ficou em 4º na Copa do Mundo de Poetry Slam, da França, representando Portugal. Criou e coordena o Núcleo de Dramaturgia Feminista, que desde 2020 passou a ser online e pelo qual já passaram mais de 300 pessoas de 12 países. Em 2019, estreou o espetáculo de palavra falada “A Palavra Mais Bonita”, que desde então circula pelos países de línguas portuguesas e já passou por Portugal, Moçambique, Brasil e Galiza (Espanha). É autora de cinco livros de poesia, diversos espetáculos teatrais e eventos literários. Mais em: www.mariagiuliapinheiro.com

#003