Coimbra-A

Você chegou e sentou-se à minha frente na carruagem do comboio
Eu na direção do sentido da marcha
Você na contramarcha
Era Verão
Nossos rostos quentes vagueando entre o rosto do outro
E a paisagem que se nos tornava inquieta
Uma borboleta pousou no vidro da janela
Você estendeu seu braço
Depois o indicador
A borboleta descansou no seu dedo alguns segundos
De seguida agitou lentamente as asas
No altifalante anunciaram a estação
Na qual eu nunca deveria ter saído

Koimbra-A

Bô txgá e bo sentá ne nhe frente ne kel karruagem de komboi 
Mi ne diresão de sintid de marxa
Bô ne kontramarxa  
Era Verão
Nój roste kente te vageá entre rojte de kumpanher 
E kel paisagem ek tava vrá inkiete pe noj 
Um borboleta ne vidre de janela
Bô xtendê brosse
Txupj indikador  
Borboleta deskansá ne sê dede alguns segunde 
De seguida el agitá lentamente sij asa 
Ne altifalante ej anunsiá xtassão
Ne kual nunka um divia ter saíde 

Gomo

Pedi para entrar
Abriste-me a porta
Sentei-me à tua mesa
Serviste-me doces gomos de tangerina
No final pediste-me que saísse
Soltaste um último gomo
Da tua para a minha mão
Ácido como só as despedidas ousam ser
Eu deixei-te palavras doces
Para que possas lavar as tuas mãos

Gome

Um pdi pe entrá
Bo abrime porta
Um sentá ne bo meza
Bo servime dosse de gome de tangerina
Ne final bo pdime pe seí 
Bo solta um último gome
Dá kel bossa pe nhe mon 
Àsido moda sô despedidas te ousá ser
Um txob palavraj dossej 
Pe bo pode lavá bôj mon 

Coisas que o meu pai me deveria ter ensinado

O modo natural que os homens têm de nada dizer
Como viver uma vida inteira com uma sombra na cabeça
A desenhar correctamente círculos e espirais com a ponta do sapato
Que há noites tão fundas como poços
O que fazer com as mãos imóveis
Saber enfrentar o horizonte com um olhar maduro como se do futuro se tratasse
Que é com mãos vazias que se resiste
A partir sabendo que se não regressa

Koisaj ke nhe pai devia ter mi inxnod

Kel forma natural ke homem têm de dzê nada
Kmanera vivê um vida inteir kum sombra ne kabessa 
Pe dezenhá korretamente sirkluj e espiraij kum ponta de sapote 
Ke tem noitej tão fund moda posse
U kê fazê kê mon imóvel
Sabê enfrentá horizonte kum olhar madure moda se de fture se tratasse
Ke ê ke mon bezi ke gente te resisti
Te parti sim sabe se gente te regressá 


Na minha família
Sempre se coaram as palavras na garganta

Forma-se um nó
E escorrem para dentro as palavras
Na boca sobram apenas pequenos fiapos
Exalações frias que acendem olhos tristes

A minha família tem olhos tristes

Ne nhe familia 
Sempre no te koroá palavraj ne garganta 

Te formá um nô  
E ej te eskorrê pe dente de palavraj    
Ne boka te sobrá apenaj unj fiapim
Exalasõej frio êk te assendê kej oi trijte  

Nhe familia tem oi triste   

Traduson de português Márcia C. Brito

Pedro Loureiro

Pedro Loureiro (1977-Até ver)
Nunca serei nau num mar bravio
Apenas e só um seixo à beira de um rio

Livros publicados:
“That’s all folks” – Editora Urutau
“Astigmatismo ou Redenção”  – Editora Urutau
“Negro Silêncio” – Editora Urutau
“O Banquete – Da chanfana de Séneca aos rojões de Nietzsche” – Editora Urutau
“Olência” – Editora Nova Mymosa

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