A Interioridade e as Redes Sociais:
alguns esboços topográficos e (im)possibilidades
Rita Dias
Universidade de Lisboa
Em que estás a pensar?
Facebook
Diante das transformações digitais em curso, hoje falamos com genuflexão dos grandes pensadores, em sentido lato, os que estudam e produzem pensamento. Entre esses estão os que se confrontam com perguntas de fundo humano, entram no caminho mais lento, solitário e íntimo e se deparam com o emaranhado, porque rico em matizes e sombras, que é a interioridade. Entre outros factores, o pálido silêncio a que nos permitimos torna complexa a tarefa de afundarmos a nossa reflexão e procurarmos as tais respostas interiores, cada vez mais longínquas do sujeito profundo (Mendonça, 2020). Mudam os significados de tempo, espaço, encetam-se novos regimes de constituição do Eu, alteram-se os modos de relação com os outros, sobretudo a partir das Redes Sociais Digitais, como o Facebook e o Instagram. Cremos, no entanto, que é redutor supor que o humano se deve afastar destas estruturas digitais porque são um problema novo que tem impacto na construção das relações intersubjetivas e é “panóptico” no que toca à projeção da subjetividade, conceitos aliás largamente estudados por Lucia Santaella (2006). Na breve investigação a que nos propomos e a partir das proposições de alguns autores que convocamos, procuraremos percepcionar algumas das condições necessárias para a formação das nossas infraestruturas de interioridade, como também, se há lugares de convivência destas mesmas premissas com a conexão do Eu interior. Não fugiremos do conceito de Interioridade de matriz cristã onde cabem e se cruzam, ao longo do tempo histórico: alma, coração, espírito, identidade e subjetividade, esta última que lhe dá forma (Marcos, 2018). Neste ensaio, o nosso olhar estará virado para as seguintes dinâmicas: na primeira secção definem-se sumariamente os conceitos de Interioridade e de Redes; na segunda secção, a partir do vetores Silêncio e Solidão, daremos visibilidade a algumas condições necessárias para a interioridade, que designámos analógica (offline), e às contingências que o próprio funcionamento destas “tecnologias do Eu” lhe podem apresentar. Ressalvamos que a nossa proposição aqui é também animada por uma inquietação pessoal de aprofundar este fenómeno tão emergente quanto complexo.
Da Interioridade
O risco de pluralizar é grande e diante das amplas perspetivas autorais consultadas, importa-nos em primeira instância, a partir do Dicionário Priberam (online), definir a palavra Interioridade como “um conjunto de factos psicológicos internos”. Fundamentando-nos na aceção mais ampla de um conceito que tem historicidade complexa (Taylor, 1989). A interioridade foi teoricamente definida por Santo Agostinho como forma de aceder a uma realidade transcendente, à Verdade, a Deus (Hipona, 2014). Posteriormente, Montaigne evoca-a como concepção individual do Eu, sendo ulteriormente ampliada por Descartes como “essência geral do Humano” (Rocha, 2015, p.10). Finalmente, a partir do século XX, com a emergência do inconsciente, é trazido por Sigmund Freud o intrincado conceito de subjectividade (com os seus vários lugares e interseções) e por Lacan que, com reformulações teóricas a partir do legado freudiano, o dividirá em três zonas: Real, Simbólico e Imaginário. À luz deste fio temporal, podemos compreender que com o Cristianismo nasceu a interioridade (necessidade do Divino que a tudo dá sentido e explicação) e com a Modernidade aflorou a subjetividade (em que é o sujeito o principal responsável por organizar o seu espaço íntimo). A partir da riqueza destas perspetivas, podemos entender a Interioridade como este campo indeterminado com que o sujeito se depara quando entra em si mesmo (Mendonça, 2020), como o âmbito que se des-cobre no exterior de Si, a partir da relação com algo ou alguém na exterioridade de ambos. No último momento, que pode ou não ocorrer, dá-se o encontro com o silêncio interior (Jesus, 2006), o que pode ocorrer de tal modo que, como num mistério, se manifeste a presença do sagrado, seja o sagrado como mera suspensão e êxodo das coisas do mundo, seja já como abertura à Presença do Divino ou de Deus, conforme a abordagem seja a presença impessoal, seja o mistério pessoal revelado da Presença de Deus.
Para o desenvolvimento da nossa reflexão também importa salientar que a nossa Interioridade vive dentro de um contexto atual de mediatização “na qual as práticas quotidianas e as relações sociais são crescentemente moldadas pelas (…) tecnologias” (Figueiras, 2017, p.102). Dentro desta lógica, talvez possamos igualmente convocar, a título breve, o conceito tão debatido de Rede Social no ambiente online como sendo um lugar de estímulos e interações, mas também um campo de instrumentos de colaboração e de produção de conhecimento (Recuero, 2012; Sawyer, Chen, 2012, p.151 e p.154) que foi criado para determinados propósitos que podem ser alterados no tempo. Na perspetiva de Slavoj Zizek (2019), estas mesmas redes controlam as nossas vidas e serão a última “forma assumida de poder” sobre as nossas ações e estados emocionais onde somos naturalmente “externalizados” e manipulados. À luz deste contraponto, uma rede é logo um espaço de liberdade controlada, podendo ser um meio de comunicar e inter-agir, mas não um meio de Comungar e Fazer no sentido mais profundo do Ser. A problemática instala-se quando, mais do que infraestrutura tecnológica, esta “sociedade de indivíduos em rede” (Castells, 2001, p.22) representa para muitos uma experiência da vida diária, um contexto existencial. Há autores que já se detêm num diagnóstico do ser humano contemporâneo como sendo agente reflexivo da fusão do real/virtual em que a interioridade deixa de “ser o foco privilegiado de cuidados (…) e volta-se para o espaço aberto dos meios de comunicação e para os seus diversos níveis de vida exterior” (Bruno, 2013, p.81), surgindo novas formas de relação consigo. A propósito da questão de cultivar a nossa interioridade perante os efeitos desta investida da tecnologia moderna, Élodie Maurot e Robert Migliorini (2018) fazem uma pequena resenha do livro Le Devenir de l’intériorité – à l’ère des nouvelles technologies, editado por Eric Fiat e Jean-Christophe Valmalette. Na opinião pouco otimista destes académicos, “o ritmo acelerado da vida, o foco contínuo no que é imediato e a exaltação da visibilidade combinam-se para formar uma séria ameaça à interioridade” e que “é necessário compreender que as pessoas não nascem com uma interioridade formada” e que “este processo de desenvolvimento só é possível na base de um diálogo entre visível e invisível, coletivo e solitário, evidente e secreto, público e privado, externo e íntimo, fora e dentro (…) como ruído e calma, velocidade e lentidão” (Fiat cit. por Maurot e Migliori, 2018).
Interioridade Analógica e Digital
“… no mundo das máquinas, quando carregamos no “pause”, a máquina pára. No mundo dos humanos, quando carregamos no “pause”, tudo começa”
Dr. Oz na Web Summit – Lisboa 8 de Novembro 2017
Solidão e Silêncio
É consensual que vivemos uma Era de incomensurável ruído, de hipersonorização, de hipersaturação de imagens, de palavras, de gestos, em suma, de hipertransmissão e hiperconectividade(s). Transitámos de uma Web estática para uma dinâmica, com uma atmosfera participativa e com uma infinitude de conversações possíveis (Recuero, 2012), com relações humanas que primam pela subjetividade complexa, também “hiperdesenvolvida” (Santaella, 2013, p.75).
Argumenta o autor Eric Fiat (2018) que, para florescer, “a interioridade precisa de momentos de calma, silêncio, solidão, sono, sigilo, tranquilidade, de sonho e de desapego”. A solidão (no sentido de solitude) pode ser então um caminho de interioridade. Sempre pôde ser, caminho e tempo para se descobrir, como no silêncio que a escuta exige. A solidão escolhida como uma espera, paciência ontológica, pelo que o mundo devolva como sentido, questão, direção. A solidão, como o silêncio, fazem intervalo sobre as continuidades e o funcionamento pelo funcionamento, como Heidegger (1977) descrevia o regime da tecnologia. Paradoxalmente, o regime de plena continuidade das Redes, sem fissuras, sem intervalo, de ruído permanente produz uma outra solidão, discricionária. Esta solidão virtual tem muito de opressora neste sentido da imersão sem fuga, nem distância face ao fluxo permanente. Pode ser residual a virtualidade de uma rede poder transmutar uma solidão online numa abertura à interioridade, ainda que possa acontecer, mas não em virtude de alguma capacidade da rede, que é um espaço–tela, logo de enredamento, de aprisionamento, quando o espaço da interioridade é sobretudo um espaço-ventre, “um útero” de diálogo e comunicação mediante o silêncio, algo ao arrepio dos processos de funcionamento de uma rede.
Noutra perspetiva, nesta solidão virtual, as redes sociais colocam a nu e incentivam aquilo que antes não era tão fácil de ser detetado: “a multiplicidade identitária do sujeito” fazendo declinar a ideia histórica da unicidade do Eu. As redes ficam com o poder não só de trazer esse facto à tona, como ampliá-lo em processos de “encenação, performance e representação” mais complexos porque “indiscriminados” (Santaella, 2006, p.76). Este cuidado de si na solidão virtual pode ser a “edição de Si” (Bruno, 2013, p.80), porque não é mais a interioridade privada, lugar de verdade do sujeito a ser conhecida. Também neste contexto experimental e performativo vivido nas redes, revela-se a “espetacularização do Eu” (Sibilia, 2004, p.2), em que a ideia de interioridade tende a ser desvalorizada e emergem esses novos relatos do Eu, sem grande olhar retrospetivo. Jeff Orlowski, no seu documentário intitulado, “O Dilema das Redes” mostra como estes espaços, desenhados com base em estudos de psicologia comportamental, são promotores de adição e alheamento já que são fontes de dopamina. O colóquio virtual permanente nas redes sociais dispersa a atenção, adormece os sentidos e a vontade. Esta ânsia fisiológica pela hiperconexão culmina inevitavelmente num ruído interno, bem longe da solitude e do quietismo necessários à intimidade do Eu (Araújo, 2020, p.10), recorrendo ao neologismo extimidade (Bruno, 2013, p.80) para o opôr à dinâmica da intimidade rarefeita. Partindo também da perspetiva de Tanguy Châtel, constante na Newsletter IHU (2018), o ser humano contemporâneo tende a descobrir que a interioridade, mais do que um desejo, é uma necessidade que coincide com este movimento em direção “à externalidade que polarizou as nossas sociedades durante as últimas duas décadas, levando as pessoas para a ação, mas que é cada vez mais cansativo e às vezes cada vez mais sem sentido”.
Claudine Haroche refere que a intensificação de fluxos informativos e sensoriais dos media, combinada com uma sensação de movimento contínuo, resulta na diminuição da “consciência e numa exteriorização da esfera interna” que são concomitantes com a fragmentação do Self (2011, p.359). A solidão real (solitude), que desconecta para fazer um intervalo, pelo contrário, é caminho para o encontro consigo e para preparar o encontro com os outros. Como referia Montaigne, “a alma que não tem um ponto de mira perde-se, pois, como soi dizer-se, é não estar em parte nenhuma em todo o lado estar” (Rocha, 2015, p.26). Por vezes, é preciso sair para regressar.
Por outro lado, na pausa necessária à solidão analógica, a constituição do Eu também se pensa com o Outro e prepara a relação para o Mundo. O filósofo e escritor judeu Emmanuel Lévinas afirma que na interioridade deve acontecer um movimento de heteronomia, facultando “a ocasião de uma retomada de relações com a exterioridade” (Marcos, 2018, p.6). Isto é, o cultivo da interioridade não deve promover o esquecimento do mundo e sim, bem pelo contrário, servir para vigorar a presença no mundo e fazê-la mais transparente. Há uma dinâmica dialógica que providencia a interioridade e que resulta das interações que experimentamos para que o discurso interno também se fixe nos modelos sociais estabelecidos e no feedback dos interlocutores. Nessa linha de pensamento, é o conceito de intersubjetividade, em que o sujeito também é forjado no outro (Sayonara cit. por Araújo, 2014), e que, por essa razão, “para conhecermos objetivamente quem somos, devemo-nos ver fora de nós mesmos” (Santaella, 2013, p.37). Esta compreensão intersubjetiva é nova na realidade digital enunciada pelas autoras, mas não na realidade humana. Na lógica da cultura participativa, as redes também podem ser um lugar de encontro, mas na sua condição etérea, desmaterializada, incorrem no risco de serem só lugares de encontro de maneira rarefeita trazendo a tão mencionada fragilidade dos vínculos humanos (Bauman, 2017, p.176). Aparecemos uns aos outros, mas aparecemos qualitativamente menos, mediados por filtros que nos vestem e revestem.
Embora neste ensaio não tenhamos colocado o foco neste vetor, não podemos deixar de sublinhar o sentido de passado como outro denominador que alicerça a interioridade, vendo-se agora espartilhado pela “presentificação do presente”, que limita a leitura que o indivíduo faz de Si, do Outro e do Mundo (Sibila, 2004, p.3,5). A experiência não é completa ou já é diferente, ou seja, “o Eu, no processo de reflexão já é Outro para si mesmo” (Santaella, 2006, p.73). A desmaterialização da relacionalidade deixa, de resto, uma relacionalidade sombra, uma interioridade carente. Noutra perspetiva, os indivíduos definem a sua participação nas redes humanas com base naquilo que os une e, nesta perspetiva, para Manuel Castells, a interação social online, sendo diferente da física, “pode não ser necessariamente menos intensa ou menos eficaz na criação de laços” (2001, p.109). As redes sociais trazem a ideia que nunca se está sozinho e que o usuário será sempre ouvido e, por isso, compartilha-se cada vez mais online para o indivíduo se sentir livre e, ao mesmo tempo, mais do que a possibilidade de pertencer a um grupo, ter o poder de escolher o seu (Castells, 2001). Todavia, também poderemos ter recursos para reconhecer estes dinamismos exteriores e saber integrá-los como vivência: “um livre movimento do Eu” (Jesus, 2006). Tendo por base estes entendimentos, se complementada por relações materiais, de encontro pleno, tendo por único filtro o mundo e a sua contingência, então as redes, nesta lógica sociocêntrica, poderão tornar-nos mais humanos, nesse sentido de nos darem inputs para a formação da interioridade. No entanto, se as relações desmaterializadas ocuparem e substituírem, em vez de complementarem, todos os outros registos de racionalidade, então esses contributos para a interioridade padecem de não acontecer. Também no silêncio absoluto ficamos frente a frente connosco, unificamo-nos no meio e perante as contingências que constantemente nos fragmentam. Edith Stein (Jesus, 2006) identifica o silêncio como fundamental nos processos de tomada de consciência da experiência do que acontece, como também o que representa o mundo, o que significa a presença dos outros e a própria presença para os demais.
Segundo a sua reflexão, é no silêncio que o indivíduo entende o movimento em que se encontra, mas também do que o Real está a produzir em si, dinâmicas essas já referidas acima. Numa das suas reflexões, o Cardeal Robert Sarah (2017) salienta que “no coração do Homem há um silêncio inato” e que viver a partir da interioridade é viver de acordo com os seus princípios, sentimentos, intuições e experiências com a imunidade forte ao contexto exterior que nos desvia para tantos processamentos e dados. Como referia o Cardeal Tolentino Mendonça (Mendonça, 2020), “o silêncio é o espaço entre as palavras num texto. Se as palavras não tivessem um espaço, não se leriam. Sem o silêncio, a nossa vida não se lê”. O silêncio também é comunicação. Mas há também silêncios “propostos” online, os quais podemos atentar. Como refere o filósofo Byung-Chul Han (2017), o Facebook, por exemplo, suprimiu a hipótese de colocar um clique “Não Gosto” como opção para apreciação das publicações. Para este investigador, isto revela que, nesta “sociedade do cansaço” esta opção exigiria conceber racionalmente uma razão para esse gesto, mas para a qual o sistema não está propositadamente disponível. Este efeito nas Redes Sociais pode retirar espaço à interioridade já que encurtar o repertório vocabular significará também dispôr de menos palavras para formular pensamento interno e para as grandes perguntas da existência humana. Segundo Tolentino Mendonça (2012), a palavra é “a expressão de nós próprios e é uma arte de ser”. Este que é o homo comunicans fica ensurdecido com tantas vozes, imagens e informações e incapaz de ouvir a voz interior. Diz ainda que precisamos de reencontrar uma “arte de pensar, construindo distanciamentos favoráveis ao silêncio e reflexão” nos espaços heterotópicos propostos por Michel Foucault no prefácio da obra As Palavras e as Coisas (1968, p.9).
Antonio Spadaro (2015) avança com a mesma preocupação, mas mais esperançosa, referindo que podemos conjugar interatividade com profundidade se “estivermos em condições de tecer uma relação viva e não puramente passiva, recetiva (…) e que conhecer significa não apenas aprofundar, mas relacionar as coisas entre elas”, tal como o “Castelo Interior” mencionado por Edith Stein (Jesus, 2006), construído por camadas interligadas. A nova ecologia de interioridade vive assim os mesmos desafios da comunicação: a necessidade de sermos reflexivos na ação, a tentativa de agregar interioridade e interação e perceber o nível de profundidade que existe nos nós entrelaçados das Redes. São cada vez mais comuns as propostas partilhadas nas Redes Sociais por psicólogos, instrutores de ioga, palestrantes ligados à neurociência/motivação e sacerdotes. São vídeos de práticas meditativas, fóruns de psicologia positiva e autoajuda, lives motivacionais sobre vários temas ligados à gestão do Eu interior, ao autocuidado/conhecimento e que têm milhares de partilhas nesta biosfera digital.
O Cardeal Tolentino Mendonça (2012) refere que podemos “estar atentos a estes convites nas Redes” que, não sendo interioridade, podem ser inputs para a construção do íntimo. Devemos reequilibrar a nossa relação com eles, questioná-los, estabelecer-lhes limites para que as Redes não sejam mais salientes na experiência do que o processo de diálogo com a interioridade. Neste risco de hipermediação, onde se podem perder silêncio e solidão, percebemos que o processo não é neutro, trazendo perdas (dispersão, por exemplo) e ganhos (inputs à interioridade). Segundo o mesmo autor, sem a garantia da presença da solidão e silêncio, a vida nas redes é apenas sobreposição de experiências visuais, informações e dados, estímulos variados sem o entendimento e assimilação do ser humano, tão necessários para haver o encontro consigo e o conhecimento: “a sabedoria reveladora”.
Na sua Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium, sobre o anúncio do Evangelho ao mundo atual, a respeito do jovem Beato de Milão e padroeiro da Internet, Carlo Acutis, o Papa Francisco refere que no mundo digital há de facto um risco de isolamento ou do “prazer vazio”. Adianta que será preciso criatividade e inteligência para, como Acutis, “viver a realidade digital com forte compromisso” (Figueiredo, 2021) e que estes mecanismos de comunicação “podem ser usados para nos tornar sujeitos adormecidos, dependentes do consumo, e das novidades” (Francisco, 2013) ou podem ser alavancas para a construção da interioridade e transmitir, por exemplo, “os valores evangélicos e a beleza”. Carlo Acutis conheceu as circunstâncias do seu próprio mundo interior. Ao mesmo tempo, aprendeu a estar no mundo digital com dinamismo ancorado em formas de transmitir a Mensagem Evangélica nas Redes, compreendendo o que estas podiam fazer para nos tornar mais humanos. Entendeu as Redes Sociais como uma ferramenta acessória do seu roteiro externo de interioridade e fez o seu próprio trabalho nestas plataformas, no sentido de revelar dispositivos de interioridade para o mundo. A partir destes contextos, compreendemos que a busca frutífera de subsídios para a interioridade nas Redes Sociais, dependerá do conhecimento crítico que se tem sobre o seu funcionamento, das circunstâncias e necessidades próprias, mas também do modo como se utilizam, encontrando cada um de nós na sua medida moderada, não compatível com o indivíduo contemporâneo inquieto, hiperativo e “esgotado espiritualmente”, que Byung-Chul Han (2017) referia.
Para além disso, se o indivíduo contemporâneo aprender a estar conectado ao seu interior analógico, vivendo de uma forma mais serena e lúcida (Marcos, 2018, p.83), com capacidade reflexiva e crítica para ser uma espécie de digitalmensor, tentando desvendar os caminhos e as armadilhas da Tecnologia (Bauman, 2017), poderá contar com campos/ferramentas/inputs mais seguros para retemperar a vida interior nas Redes. É o humano quem dá forma à tecnologia, de acordo com as suas necessidades, valores e interesses (Castells, 2006, p.16), apesar de todas as ambiguidades que as mesmas nos apresentam.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estamos perante um momento charneira para pensar como as Redes Sociais estão a “(re)construir sentidos e discursos internos e “a alterar os modos de sentir”, pensar e “de ser” (Recuero, 2012, p.3). Inscrevendo-lhes novas paisagens subjetivas e intersubjetivas (Santaella, 2013) em palimpsesto, continuamos com as mesmas rotas internas, inquietudes, numa nova circunstância tecnológica que não é neutra. O caminho aberto para a interioridade analógica continua feito de solidão e silêncio. Com a reflexão crítica e conhecimento sobre os processos de mediatização (Figueiras, 2017), bem como todas as ameaças, riscos e ambiguidades inerentes às Redes (Marcos, 2018), podemos vislumbrar algum espaço, nem tanto para a interioridade (que precisa de condições muito específicas), mas mais para a possibilidade de receber inputs online (vídeos, palestras, textos publicados nestas plataformas) que podem subsidiar a formação de infraestruturas de interioridade. É necessária uma proposta de desenvolvimento “sustentável de interioridade” que no contexto digital (Mendonça, 2012) poderá passar por saber proteger estes tempos de silêncio e solidão offline e reequilibrar a relação com as Redes Sociais (Mendonça, 2012). A instabilidade no processo significará ora poder cultivar uma vida gregária (2001, Castells), ganhando entendimento sobre as ferramentas digitais, fugir da superficialidade (Spadaro, 2015), selecionar inputs com valor para o auto-conhecimento, ora, por outro lado, ter tendência constante para a exterioridade, que leva a encarar a interioridade como um convite ao fechamento sobre si próprio – alheio à vida. Nesta qualidade, as Redes podem ser caminho humano de encontro da tal alienação apontada por Byung-Chul Han (2017), isto se os sentidos estiverem cansados e se a procurarmos como alternativa à realidade da relação connosco e com os outros. Entende-se por isso que a temática em estudo é ambígua porque as redes sociais podem ser um instrumento, uma força como o vapor, aplicada à velha máquina da construção da interioridade, que estas poderão ajudar a aprofundar, se ela andar, ou a desequilibrar, caso ela se perca. E isto leva consigo o mundo.
Este texto procurou ensaiar contribuições para a pesquisa, deixando em aberto várias possibilidades futuras a merecer exploração, a saber: que significado tem a interioridade na construção identitária da contemporaneidade, quais papéis podemos ter e que outros inventar para dinamizar a interioridade nas Redes Sociais?
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Rita Dias
Rita Dias é formada em História-variante de Arqueologia pela Universidade Nova de Lisboa, com Especialização em Ciências da Educação. É professora de História do Ensino Básico e Secundário desde 2002. Aluna do Mestrado de Cultura e Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (2002-24) dirigido por Sofia Ullan Frade. Coordenadora de diversos projetos que relacionam Arte, Cultura e Sociedade.
